Alessandra Castilho da Costa, Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), alessandracastilho.costa@hotmail.com

QOHELET/O PREGADOR NÃO É MISÓGINO: a articulação do sentido e seus entornos em Eclesiastes 7:25-26

Qohelet/the Preacher is not a misogynist: the articulation of meaning and its surroundings in Ecclesiastes 7:25-26

Abstract

This study seeks to analyze the articulation of meaning in Eccl. 7:25-26 and to answer whether this excerpt contains misogynistic content. It constitutes part of a broader research on Eccl. 7:25-29, a passage in which the speaker, Qohelet/The Preacher, supposedly attributes to women a morality inferior to that of men. Based on the theoretical-methodological framework of Text Linguistics proposed by Coseriu (1994), two semiotic relations are distinguished in the texts: in the first, there are designation (the reference to the extralinguistic reality) and signified (the content given by a language); in the second, there is meaning (the human attitude implied by the discourse or the purpose for which it is carried out). The analysis of these relations points to two implicit paraphrases in Eccl. 7:25, wickedness is folly and justice or righteousness is wisdom, which articulate themselves to a higher-level unit of meaning that challenges the interpretation of the preceding portion of Ecclesiastes (7:16-17) as a defense of moderate practice of wickedness and righteousness; in Eccl. 7:26, gender disagreement leads to the comparison of equality the woman is equal to the man, which articulate itself to the unit in which the feminine voice of Qohelet/Preacher, the soul mate of the masculine speaker Qohelet/the Preacher, is introduced. From this latter comparison, it follows that the speaker is not a misogynist. Finally, it is verified that the two verses comprise a riddle, with turns of speech by Qohelet/the (masculine) Preacher and Qohelet/the (feminine) Preacher.

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Keywords

Ecclesiastes 7:25-26, Qohelet/the Preacher, misogyny, articulation of meaning, Text Linguistics, Eugenio Coseriu

Resumo

Este estudo busca analisar a articulação do sentido em Ecl. 7:25-26 e responder se tal excerto possui teor misógino, constituindo-se como parte de pesquisa mais ampla sobre Ecl. 7:25-29, passagem em que o locutor, Qohelet/O Pregador, supostamente atribui à mulher moralidade inferior à do homem. Com base no instrumental teórico-metodológico da Linguística de Texto proposta por Coseriu (1994), distinguem-se duas relações semióticas nos textos: na primeira, estão a designação (a referência à realidade extralinguística) e o significado (o conteúdo dado por uma língua); na segunda, o sentido (a atitude humana que o discurso implica ou a finalidade com que se realiza). A análise dessas relações aponta duas paráfrases implícitas em Ecl. 7:25, impiedade é loucura e juízo ou justiça é sabedoria, que se articulam à unidade de sentido de nível superior em que se contesta a interpretação de porção precedente de Eclesiastes (7:16-17) como defesa de prática moderada de impiedade e justiça; já em Ecl. 7:26, a quebra de concordância de gênero conduz à comparação por igualdade a mulher é igual ao homem, que se articula à unidade de introdução da voz feminina da Qohelet/Pregadora, alma gêmea do locutor masculino Qohelet/o Pregador. Dessa última comparação se conclui que o locutor não é misógino. Por fim, verifica-se que os dois versos compõem uma adivinha, com turnos de fala do Qohelet/o Pregador e da Qohelet/Pregadora.

Keywords

Eclesiastes 7:25-29, Qohelet/o Pregador, misoginia, articulação do sentido, Linguística de Texto, Eugenio Coseriu

1. Introdução

Em Eclesiastes, um locutor autodenominado Qohelet (hebraico transliterado, em geral, traduzido como o Pregador) parece atribuir à mulher moralidade inferior à do homem. Em princípio, dois versos, 7:26 e 28, apontam nessa direção: em 7:26, a mulher é sedutora, criando armadilhas para o homem; em 7:28, encontram-se, entre mil, um homem respeitável, mas nenhuma mulher. Tal atitude depreciativa adviria, segundo os hermeneutas, da experiência pessoal do autor, supostamente o rei Salomão, que chegou a contar em seu harém com mil

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mulheres (1 Reis 11:3). O próprio locutor do livro apenas informa ser filho de Davi e rei de Israel (Ecl. 1:1), um sábio a estudar provérbios e ensinar o conhecimento (12:9). A tradução portuguesa da Nova Versão Internacional (NVI) ilustra a leitura tradicional de Ecl. 7:25-291:

25 Por isso dediquei-me a aprender, a investigar, a buscar a sabedoria e a razão de ser das coisas, para compreender a insensatez da impiedade e a loucura da insensatez.
26 Descobri que muito mais amarga do que a morte é a mulher que serve de laço, cujo coração é uma armadilha e cujas mãos são correntes. O homem que agrada a Deus escapará dela, mas ao pecador ela apanhará.
27 "Veja", diz o Mestre, "foi isto que descobri: Ao comparar uma coisa com outra para descobrir a sua razão de ser,
28 sim, durante essa minha busca que ainda não terminou, entre mil homens, descobri apenas um que julgo digno, mas entre as mulheres não achei uma sequer.
29 Assim, cheguei a esta conclusão: Deus fez os homens justos, mas eles foram em busca de muitas intrigas. (Ecl. 7:25-29, NVI)

  Todavia, convém questionar se Qohelet/o Pregador é realmente misógino. Primeiro, porque Eclesiastes é um livro enigmático, multivalente (Sandoval/Hayes 2011), fundamentalmente ambíguo em sua linguagem, sintaxe e estrutura (Ingram 1996) – uma "pedra de tropeço" para seus intérpretes (Bianchi 1993), desafiando firmemente sua análise como nenhum outro livro da Bíblia (Murphy 2018). Segundo, porque interpretações frequentemente refletem as crenças dos intérpretes, fenômeno conhecido por eisegesis (em oposição a exegesis); por isso, não se deve capitular a qualquer leitura, antes, toda interpretação deve ser comprovação fundada e justificada da articulação do sentido (Coseriu/Loureda 2006: 57-58). Terceiro, porque o linguista possui uma responsabilidade não apenas científica, mas também social (Kabatek/Coseriu/Murguía 1997: 181) e responder se Eclesiastes 7:25-29 é misógino interessa a boa parte dos leitores da Bíblia hebraica, particularmente às mulheres, pois se trata de fragmento usado historicamente pelo patriarcalismo religioso para justificar a supremacia masculina e a sujeição feminina, com base numa suposta inferioridade moral da mulher.
  O objetivo do presente trabalho é analisar a articulação do sentido em Eclesiastes 7:25-26 na perspectiva da Linguística de Texto proposta por Eugenio Coseriu (1979 [1955/56]; 1994; 2007). Para esse autor, a principal tarefa da Linguística de Texto é revelar de que maneira e em

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que níveis se articula o sentido. Apesar disso, a articulação do sentido foi pouco estudada, inclusive em seu aspecto puramente prático (Coseriu 2007: 133). À luz desses pressupostos, buscamos, de um lado, comprovar como diferentes unidades de sentido em Eclesiastes 7:25-26 se articulam umas às outras, construindo um sentido global, e, de outro, responder se Qohelet/O Pregador atribui à mulher moralidade inferior à do homem. Tal pesquisa insere-se em estudo mais amplo sobre o suposto teor misógino de Eclesiastes 7:25-29.
  Este artigo divide-se em cinco partes. Feita esta introdução (seção 1), a seção 2 aborda os conceitos de sentido e entorno na linguística de texto coseriana; as seções 3 e 4 dedicam-se à análise de Ecl. 7:25 e 26, respectivamente. Na conclusão (5), sintetizamos os principais achados e apontamos questões que deles decorrem.

2. Sentido e entorno em Coseriu (1994)

Coseriu fundamenta a Linguística de Texto em sua proposta de tripartição do linguístico (Quadro 1): um nível universal, relativo ao falar como atividade propriamente humana; um histórico, relativo às línguas, com suas regras e vocabulários específicos; e um individual, relativo aos discursos ou textos, atos linguísticos produzidos em situações específicas de comunicação. Tais níveis se podem considerar do ponto de vista da energeia/criação, da dynamis/potência ou saber e do érgon/produto; por exemplo, as categorias de discurso e texto delimitam-se, respectivamente, pelos pontos de vista da criação e do produto. A cada nível linguístico corresponde uma disciplina que explica ou interpreta um tipo de conteúdo linguístico: no nível universal, a Linguística do Falar é hermenêutica da designação, a referência a entidades extralinguísticas; no nível histórico, a Linguística da Língua, hermenêutica do significado, o conteúdo específico delimitado por um signo numa língua; no nível individual, a Linguística do Texto, hermenêutica do sentido, o conteúdo veiculado pelo texto, correspondente a atitudes, intenções e suposições do falante.

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Quadro 1: Três níveis do linguístico sob três pontos de vista; disciplinas e conteúdos. Fonte: adaptado de Coseriu

(1992: 92, 102; 1994: 63; 2007: 59)

  Ainda sob a ótica coseriana, distinguem-se duas relações semióticas nos textos: na primeira, estão a designação, isto é, a referência a entidades extralinguísticas, e o significado, isto é, o conteúdo delimitado por um signo numa língua particular; na segunda, está o sentido, o conjunto de conteúdos que se entendem no texto e somente pelo texto (Coseriu, 1994; 2007: 60-62). Tais conteúdos se articulam uns aos outros em unidades de sentido de nível cada vez superior, até o sentido global do discurso considerado (Coseriu 2007: 58).
  Ilustremos tal distinção a partir de Gênesis 2:23: Adão profere o discurso mibbəśārî ūḇāśār mê·'ăṣāmay 'eṣem happa'am zōṯ/Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne. Na primeira relação semiótica, temos, no nível universal, a designação das entidades extralinguísticas Adão, Eva, carne e ossos; no nível histórico, certos significados do hebraico, por exemplo, /esta, mê·'ăṣāmay 'eṣem/osso dos meus ossos e mibbəśārî ūḇāśār/e carne da minha carne. No nível universal, o leitor conhece o raciocínio proporcional A:B::C:D2 entre as regras gerais do pensar e, dotado de tal saber elocutivo, percebe que, se os ossos (A) de Eva (B) são os ossos (C) de Adão (D), isto é, A:C, e, dado ainda que a carne (E) de Eva (F) é a carne (G) de Adão (H), isto é, E:G, logo, Eva, a mulher, é igual a Adão, o homem (B:D e F:H). Assim, além da designação e do significado, na primeira relação semiótica, chega-se ao nível individual do sentido, na segunda relação semiótica: ao ato linguístico executado por Adão de equiparar Eva a ele, de forma implícita construindo a comparação por igualdade3 esta (ela, Eva, a mulher) é igual a mim (ele,

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Adão, o homem). O contexto natural – no caso, o conhecimento acerca das partes do corpo humano – participa da construção da comparação.

Fig. 1: Dupla relação semiótica em Gên. 2:23. Fonte: Elaboração própria

  Pois bem, compreender o sentido do texto exige recuperar seus distintos entornos e Coseriu (1994: 143) os agrupa em situação, região, contexto e universo de discurso.
  A região é o espaço de funcionamento usual do signo e compreende a zona, seu espaço linguístico; o âmbito, espaço em que se conhece a entidade designada; e o ambiente, esfera de atividade estabelecida social e/ou culturalmente. Por exemplo, a região do signo Iavé engloba a zona da Bíblia hebraica, o âmbito da fé (espaço em que se conhece a Divindade) e o ambiente religioso, em que se usa Iavé para designar a Divindade.
  O contexto ou a realidade que rodeia um signo divide-se em idiomático, verbal e extralinguístico. O contexto idiomático4 é a língua como fundo do falar; no caso de Gên. 2:23, o hebraico e/ou sua tradução, por exemplo, em português. O contexto verbal é o próprio discurso/texto como entorno de suas partes: o contexto verbal imediato corresponde às partes mais próximas, enquanto o mediato, às mais distantes; e o contexto verbal positivo ou negativo corresponde, respectivamente, aquilo que se diz ou se deixa de dizer. Por exemplo, "esta será chamada varoa, porquanto do varão foi tomada" (Gen. 2:23) está no contexto verbal imediato de "Esta é agora osso dos meus ossos e carne da minha carne" (Gen. 2:23). Ademais, a narrativa monoteísta da criação é o contexto verbal positivo em contraste às politeístas, no contexto verbal negativo. O contexto extraverbal5 engloba os contextos físico, empírico, natural, prático, histórico (particular ou universal; atual ou pretérito) e cultural. Quanto a tais contextos, o

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leitor de Gên. 1-2 não tem acesso ao contexto físico, àquilo que se pode ver. Quanto ao contexto empírico, fatos e objetos conhecidos num tempo e lugar, o locutor de Gên. 1-2 crê, por exemplo, que a) carne e ossos são parte do corpo humano, b) Adão e Eva eram igualmente humanos e c) Deus formou a mulher do homem. O contexto natural é a totalidade do que se conhece do mundo; em Gên. 1-2, conhecem-se, entre outros, os corpos celestes como entidades do mundo natural e carne e ossos como partes do corpo humano. O contexto prático ou ocasional é a situação do falar, que, no caso de Gen. 1-2, é explicar como o mundo começou. O contexto histórico, as circunstâncias conhecidas por falante e ouvinte, subdivide-se em particular ou universal, atual ou pretérito e cultural. Visto que Gen. 1-2 aborda os primórdios da humanidade, o contexto histórico é universal e pretérito. Já o contexto cultural abarca a história espiritual duma comunidade, incluindo suas tradições literárias (Coseriu 1955/56: 234) – caso da comparação por igualdade ela é igual a ele na Bíblia Hebraica, uma tradição discursiva6, cuja função de informar a igualdade entre as contrapartes masculina e feminina de uma classe influencia a construção do sentido em várias passagens.
  Exemplo disso é Gên. 23. Sara morre (Gên. 23:3) e Abraão quer comprar dos heteus uma sepultura para enterrá-la. No início e fim dessa unidade (Gen. 23:1-2, 16-20), formas femininas (A) designam a entidade feminina Sara (B) e masculinas (C) a entidade masculina Abraão (D). Todavia, no centro (Gen. 23:3-15), usam-se as expressões masculinas mêṯōw/seu morto (Gên. 23:3), mêṯî/meu morto (Gên. 23: 4, 8 e 13) e mêṯeḵā/teu morto (Gên. 6, 11 e 15) em referência a Sara. Tal desconformidade de gênero leva à equiparação de feminino e masculino: se formas masculinas (C) podem corresponder tanto a entidades masculinas (D), quanto a femininas (B), conclui-se que a mulher morta é igual ao homem morto (B:D) – trata-se de subtipo da comparação por igualdade ela é igual a ele.
  O último tipo de entorno é o universo de discurso, o sistema de significações a que pertence um discurso. Coseriu (2003: 15) reconhece quatro universos de discurso em correspondência a quatro modos de conhecer: os universos a) da experiência comum; b) da ciência; c) da fantasia e arte; d) da fé. Visto que Gên. 1-2 narra a criação do mundo pela Deidade, esse fragmento pertence ao universo de discurso da fé.

3. Eclesiastes 7:25: as paráfrases impiedade é loucura e juízo ou justiça é sabedoria

Abre-se Ecl. 7:25 (Fig. 2) com sabbōwṯî/volvi, 1ª pessoa do singular no perfeito Qal. Segue-se a expressão wəlibbî 'ănî/eu e meu coração em posição de sujeito, embora o verbo concorde

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somente com o pronome. Dois complementos de sabbōwṯî/volvi cindem o verso em duas partes. Em 25a, a preposição lā/para ou a anexa dois infinitivos (lāḏa'aṯ/a conhecer; lāṯūr/a explorar), mas não o terceiro, coordenado ao bloco por waw/e (ū-) (ūḇaqqêš/e buscar), havendo, assim, quebra de paralelismo. Os complementos diretos da tríade de verbos são os substantivos ḥāḵmāh/sabedoria e ḥešbōwn – este, frequentemente traduzido em português como razão das coisas, refere-se a uma operação aritmética (Fox 2004: 52), à ciência dos valores e proporções (Mendelssohn 1972: 242 apud Fleck 2019: 113), a um conhecimento exato (Keil e Delitzsch 1875: 325), em suma, a um cálculo matemático. O segmento 25b é coordenado a 25a por waw/e, que agrega nova ocorrência de lāḏa'aṯ/a conhecer e, como complemento, quatro substantivos, reša/impiedade, kesel/insensatez, siḵlūṯ/estultícia, hōwlêlōwṯ/loucuras, dos quais os três primeiros estão no singular e o quarto, no plural; além disso, somente o terceiro recebe artigo (hassiḵlūṯ/a estultícia), sendo antecedido por waw/e (wəhassiḵlūṯ/e a estultícia).

Fig. 2: Glosa interlinear de Ecl. 7:25.7 Fonte: adaptado de Bible Hub8

  A sonoridade é característica proeminente da poesia hebraica que pode resguardar o leitor de interpretações equivocadas (McCreesh, 1991: 12-13) e, portanto, nossa análise parte do nível fônico (Fig. 3).
  Aqui o locutor alitera9 s e š em sabbōwṯî/volvi, ḇaqqêš/buscar, ḥešbōwn/cálculo, reša/impiedade, kesel/insensatez, hassiḵlūṯ/a estultícia; b, w, ā (com pronúncia de o), ōw e ū, em sabbōwṯî/volvi, wəlibbî/e meu coração, wəlāṯūr/e a explorar, ūḇaqqêš/e buscar, wəḥešbōwnn/e cálculo, ḥāḵmāh/sabedoria, wəlāḏa'aṯ/e a conhecer, wəhassiḵlūṯ/e a estultícia e hōwlêlōwṯ/loucuras; d e t em sabbōwî/volvi, lāa'a/a conhecer, lāūr/a explorar, hassiḵlū/a estultícia e hōwlêlōw/loucuras; m e n em nî/eu, ḥāḵmāh/sabedoria e ḥešbōwn/cálculo; l e r

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em libbî/meu coração, lāḏa'aṯ/a conhecer, lāṯūr/a explorar, reša/impiedade, kesel/insensatez, hassiḵlūṯ/a estultícia e hōwlêlōwṯ/loucuras; por fim, q, h e k em ḇaqqêš/buscar, hakmah/sabedoria e ešbōwn/cálculo. Também cria assonância de a em sabbōwṯî/volvi, 'ănî/eu, lāa'a/a conhecer, wəlāṯūr/e a explorar, ūḇaqqêš/e buscar, ḥāḵmāh/sabedoria, wəlāa'aṯ/e a conhecer, reša/impiedade e wəhassiḵlūṯ/e a estultícia; de e e i em sabbōwṯî/volvi, 'ănî/eu, wəlibbî/e meu coração, wəlāṯūr/e a explorar, ūḇaqqêš/e buscar, wəešbōwn/e cálculo, wəlāḏa'aṯ/e a conhecer, reša/impiedade, kesel/insensatez, wəhassiḵlūṯ/e a estultícia e hōwlêlōwṯ/loucuras.

Fig. 3:10 Aliteração e assonância em Eclesiastes 7:25. Fonte: Elaboração própria

  Mediante a aliteração e assonância, o locutor evoca a ligação sonora entre um signo linguístico e outro, imprime musicalidade ao verso (sentido 1; cf. Coseriu 1954: 58) e dispõe sonoridades para gerar paronomásia11. Os padrões sonoros A, B, C e D arranjam-se em paronomásia de sabbōwṯî/volvi (sentido 2; Fig. 3 e 4), de sorte que ABCCCAD, s-a-b-b-o-t-i, de sabbōwṯî/volvi, passa a CCBDA, u-b-a-e-sh, de ūḇaqqêš/e buscar; CDDACC, v-e-e-sh-b-o, de ḥeešbōwn/e cálculo; CDBAADCA, v-e-a-s-s-i-u-t, de hassiḵlūṯ/e a estultícia. E e F combinam-se para produzir nl (sentido 3; Fig. 3 e 4), paronomásia de ml ('amal)/esforçar-se, no segmento inicial wəlāṯūr lāḏa'aṯ wəlibbî 'ănî sabbōwṯî/volvi eu e meu coração a conhecer e a explorar. E, F e G engendram a paronomásia hkm (ḥāḵmāh)/sabedoria (sentido 4; Fig. 3 e 4), no bloco central, wəḥešbōwn ḥāḵmāh ūḇaqqêš/e buscar sabedoria e cálculo. Por sua vez, F e G evocam hll, hohelah/loucura (sentido 5, forma singular; Fig. 3 e 4), no bloco final hōwlêlōwṯ wəhassiḵlūṯ kesel reša wəlāḏa'aṯ/e a conhecer impiedade, insensatez e a estultícia loucuras. No segmento hōwlêlōwṯ wəhassiḵlūṯ kesel reša/impiedade insensatez e a estultícia loucuras, instrui-se o leitor a vincular hōwlêlōwṯ wəhassiḵlūṯ kesel reša/impiedade insensatez e a estultícia loucuras, iniciando pelo par reša/impiedade e kesel/insensatez, mediante a aliteração de l, r e s, que cria a paronomásia (reša)/impiedade (sentido 6; Fig. 3 e 4); passando

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para kesel/insensatez e hassiḵlūṯ/a estultícia, mediante a aliteração de s, k, l, que cria a paronomásia skl (siḵlūṯ)/estultícia (sentido 7; Fig. 3 e 4); e, deste último, para hassiḵlū/a estultícia e hōwlêlōw/loucuras, mediante a aliteração de k/h, l e t, que cria a paronomásia hlt (hōwlêlōwṯ)/loucuras (sentido 8, forma plural; Fig. 3 e 4).

Fig. 4: Atos linguísticos 1 a 8 – aliteração e paronomásia em Ecl. 7:25. Fonte: Elaboração própria

Todas as expressões12 contêm sonoridades paralelas invertidas/quiasmas13 (Fig. 5):

Fig. 5: Aliteração e quiasmas em Eclesiastes 7:25. Fonte: Elaboração própria

  Em sabbōwṯî/volvi, a ordem ACCC, s-b-b-ōw, no início da expressão para o meio, inverte-se como CCCA, b-b-ōw-ṯ, do meio para o fim; em 'ănî/eu, a ordem vogal (ă) + nasal (n), no início da expressão para o meio, inverte-se como nasal (n) + vogal (î), do meio para o fim; em wəlibbî/e meu coração, a ordem CDF,v-e-l, inverte-se como FDC, l-i-b, e, de novo, CCD, b-b-i, ao longo da expressão; em lāḏa'aṯ/a conhecer, a ordem BA, a-d, no início, inverte-

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se como ABB, d-a-a, no meio, e BBA, a-a-t, no fim; em wəlāṯūr/e a explorar, a ordem FA, l-t, no início da expressão para o meio, inverte-se como AF, t-r, do meio para o fim; em ūḇaqqêš/e buscar, a ordem vogal (a) + qq, no início da expressão para o meio, inverte-se como qq + vogal ), do meio para o fim; em ḥāḵmāh/sabedoria, a ordem GGE, h-k-m, no início da expressão para o meio, rearranja-se como GEG, k-m-h, do meio para o fim; em wəḥešbōwn/e cálculo, a ordem DG, ə-ḥ, no início, inverte-se como GD, ḥ-e, ainda no início, e a ordem vogal + š (eš), no meio, inverte-se como š + vogal (š-ō), do meio para o fim; em wəlāḏa'aṯ/e a conhecer, a ordem BA, a-d, no início, inverte-se como ABB, d-a-a, no meio, e BBA, a-a-t, no fim; em reša/impiedade, a ordem vogal + š (eš), no início, inverte-se como š + vogal (ša), no fim; em kesel/insensatez, a ordem DA, e-s, no início, inverte-se como AD, s-e, no fim; em wəhassiḵlūṯ/e a estultícia, a ordem CDGBAA, v-e-h-a-s-s, do início para o meio da expressão, recombina-se como BAADGC, a-s-s-i-k-u, do meio para o fim; em hōwlêlōwṯ/loucuras, a ordem CFD, ōw-l-ê, do início para o meio, inverte-se como DFC, ê-l-ōw, do meio para o fim. Cada uma delas também se liga às demais, retrospectiva e/ou prospectivamente, em novos quiasmas. Desse modo, o locutor divide e une todas as partes do texto, desde as menores até as maiores.
  Por causa do espaço exíguo, não se apresentarão todos os quiasmas, mas apenas aqueles mais relevantes para a segmentação do verso (Fig. 6).

Fig. 6: Segmentação por quiasmas em Ecl. 7:25. Fonte: Elaboração própria

Em wəlibbî 'ănî sabbōwṯî/volvi eu e meu coração (Q1; sentido 9; Fig. 7), a sequência b-b-o de sabbōwṯî/volvi é paralela a v-b-b, de wəlibbî/e meu coração. Com a assonância de e, i e a, emerge a ordem BCCCD, a-b-b-ōw-î, de sabbōwṯî, na primeira ponta do quadrado, que se rearranja como BD, a-i, de 'ănî/eu, na segunda, CD, v-e, de /e, na terceira, e DCCD, i-b-b-i, de libbî/meu coração, na quarta.

  Em wəlāṯūr lāḏa'aṯ/a conhecer e a explorar (Q2; sentido 10; Fig. 7), a aliteração de l e r (F) e d e t (A) e a assonância de a (B) engendram as sonoridades lad, daat, lat, at e r, unindo os dois infinitivos lāḏa'aṯ/a conhecer e wəlāṯūr/e a explorar. A preposição /a, na primeira ponta do quadrado, forma com o d inicial de ḏa'aṯ/conhecer, a ordem FBA, l-a-d, que se reordena como ABBA, d-a-a-t, de ḏa'aṯ/conhecer, na segunda; com CD, v-e, de /e, na terceira, obtém-se a combinação FAAC, l-d-t-v, de wə lāḏa'aṯ/a conhecer e, que passa a CFAF, v-l-t-r, de wəlāṯūr/e a explorar, com lāṯūr/a explorar, na quarta.

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  Em wəḥešbōwn ḥāḵmāh ūḇaqqêš/e buscar sabedoria e cálculo (Q3; sentido 11; Fig. 7), o infinitivo ḇaqqêš/buscar, na primeira ponta, enlaça-se, de um lado, com ḥāḵmāh/sabedoria, na segunda, pela similaridade de BGG, a-q-q, de aqqêš/buscar, com GGBG, h-k-a-h, de āmāh/sabedoria; de outro, com wə/e, na terceira, e ḥešbōwn/e cálculo, na quarta, pela combinação de b/v, u/o, k/h e sh (ūḇaqqêš; wəešbōwn), em que a ordem u-b (CC) q-q-e-sh (GGDA) de ūḇaqqêš se inverte como v-h-e-sh-b-o (CGDACC) em wəḥešbōwn. Assim, a sonoridade de ūḇaqqêš/e buscar contém as de ḥāḵmāh/sabedoria e wəḥešbōwn/e cálculo – efeito de igualdade em que buscar é buscar sabedoria e cálculo.

  Em kesel reša wəlāḏa'aṯ/e a conhecer impiedade insensatez (Q4; sentido 12; Fig. 7), a ordem e-l (DF), de wəlāḏa'aṯ/e a conhecer, na passagem da primeira ponta, wə/e, para a segunda, lāḏa'aṯ/a conhecer, inverte-se em r-e (FD), de reša/impiedade, e retorna como e-l (DF), em kesel/insensatez, enquanto a sequência e-sh (DA) de ra/impiedade espelha-se em e-s-e (DAD) de kesel/insensatez.

  Em hōwlêlōwṯ wəhassiḵlūṯ/e a estultícia loucuras (Q5; sentido 13; Fig. 7), inverte-se a ordem CG, v-h, de wəhassiḵlūṯ/e a estultícia, na primeira e segunda pontas do quadrado, em GC, h-o, de hōwlêlōwṯ/loucuras, na terceira e quarta pontas, enquanto se repete a terminação FCA, l-u-t, na segunda e quarta pontas.

Fig. 7: Atos linguísticos 9 a 13 – quiasmas em Ecl. 7:25. Fonte: Elaboração própria

Passemos às propostas de interpretação. A expressão inicial do verso, wəlibbî 'ănî/eu e meu coração, recebe, pelo menos, cinco leituras, que parafraseamos do seguinte modo:

   A. Volvi eu meu coração a conhecer e a explorar e buscar sabedoria e cálculo.
   B. Volvi e meu propósito era conhecer e explorar e buscar sabedoria e cálculo.
   C. Volvi eu, isto é, meu coração, a conhecer e a explorar e buscar sabedoria e cálculo.
   D. Volvi, eu e meu coração, a conhecer e a explorar e buscar sabedoria e cálculo.
   E. Volvi eu e meu coração a conhecer e a explorar e buscar sabedoria e cálculo.

  Em A, elide-se waw/e em libbî/e meu coração para fazer de libbî/meu coração o complemento acusativo, paciente da ação de volver – leitura amparada na alternativa belibbî/com meu coração (preposição beth/com) de alguns manuscritos (Reichert, 1945: 157;

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Krüger 2004: 143). Entretanto, a presença da conjunção waw/e é confirmada pela Septuaginta (cf. Krüger 2004: 143), a mais antiga tradução do texto bíblico, que a substitui pela conjunção grega aditiva kai, removendo, assim, tal interpretação dentre as opções de leitura.
  Em B, o coração não participa do ato de volver, mas do de conhecer. Aqui a conjunção waw/e segmenta duas orações, com 'ănî/eu exercendo a função de sujeito de sabbōwṯî/volvi e libbî/meu coração, de lāḏa'aṯ/a conhecer. Traduz-se libbî como meu desejo ou meu propósito e postula-se uma cópula elíptica (era) antes de lāḏa'aṯ. Porém, além de acrescentar uma nova variável (a elipse), tal leitura afronta a organização fonológica e quiástica do verso, que agrupa, de um lado, wəlibbî 'ănî sabbōwṯî, e, de outro, lada'at e latûr.
  Em C, propõe-se para a conjunção waw/e em wəlibbî/e meu coração valor explicativo, especificando o sujeito principal 'ănî/eu (Seow 1997: 260) mediante uma aposição (Holmstedt e Jones 2017: 30): volvi eu (âncora), isto é, meu coração (apositivo). Também em D, recorre-se a uma aposição, mas de toda a expressão wəlibbî 'ănî/eu e meu coração. Holmstedt (2010) argumenta que wəlibbî 'ănî não é o sujeito de sabbōwṯî, porque, no hebraico bíblico, afixos verbais (-î, primeira pessoa do singular, em sabbōwṯî/volvi) desempenham tal função (p. 12) e a falta de concordância entre a flexão na primeira pessoa do singular e a expressão coordenada indica que wəlibbî 'ănî não possui status de sujeito (p. 14). Contudo, a discordância gramatical pode ter outras motivações, além da hipótese de sujeito nulo, já que apositivos se demarcam por pausas e, em Ecl. 7:25, tanto a aliteração quanto a acentuação (Keil e Delitzsch 1875: 325), além da estrutura quiástica, amarram wəlibbî 'ănî/eu e meu coração ao verbo sabbōwṯî/volvi.
Em E, o pronome 'ănî/eu concorda com o verbo na primeira pessoa, exercendo a função sintática de sujeito. A conjunção waw/e em wəlibbî/e meu coração comunica que as expressões 'ănî/eu e libbî/meu coração são paralelas de algum modo e devem se unir. Por sua vez, a preposição lā/para ou a confere ao bloco de verbos infinitivos com complementos acusativos o valor semântico de alvo e a função de complemento oracional do verbo conjugado. Enquanto a aliteração, a assonância e a estruturação em quiasma agrupam as expressões 'ăni/eu e libbî/meu coração ao verbo sabbōwṯî/volvi, desqualificando a hipótese de aposição, a quebra de concordância entre o sujeito wəlibbî 'ănî/eu e meu coração e o verbo na primeira do singular requer explicação. O fronteamento verbal (Ginsburg 1861: 386) poderia elucidá-la, mas o locutor escolheu as palavras com cuidado para criar sonoridade; então, poderia ter corrigido a ruptura se assim quisesse; logo, ela é deliberada, produzida para alcançar um efeito de sentido que não se poderia obter de outra maneira. Nessa direção, Zöckler (1868: 180) sugere a

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ocorrência de uma hendíade14, figura frequente no texto bíblico, em que se divide uma noção em dois componentes coordenados pela conjunção e (Brogers 1965: 109). Entretanto, 'ănî/eu e libbî/meu coração não constituem dois aspectos da mesma entidade, mas a própria entidade ('ănî/eu) e uma parte dela (libbî/meu coração). Aqui o locutor evoca o contexto natural (Coseriu 1979 [1955/56]: 233) segundo o qual uma pessoa e sua mente/seu coração constituem uma unidade e, assim, mobiliza, no nível textual, a figura do todo e suas partes (σχῆμα καθ ὅλον και μέρος [schēma kath'òlon kai meros]; cf. Bühlmann e Scherer 1994: 33), para intensificar seu envolvimento (sentido 14; Fig. 6 e 7). Cumpre-se, assim, a exigência de paralelismo pela conjunção waw/e, ao mesmo tempo que a forma verbal singular informa o leitor sobre a divisão do bloco em todo-parte15, concordando com o todo ('ănî/eu). Nessa leitura, todas as variáveis linguísticas articulam-se de modo coerente e solidário, o que nos leva a adotá-la.
  Sobre o espaço-tempo desse discurso, pouco se sabe. Hertzberg (apud Murphy 2018: XXII) argumenta que a menção a reservatórios de água (Ecl. 2:6), tetos gotejantes (10:18), poços (12:6) são dados da realidade da Palestina (do contexto empírico) que localizam Eclesiastes em Jerusalém; esse autor também defende que, se Jesus Ben Sirac/Eclesiástico usa Eclesiastes, esta última obra data de cerca 200 a.C. Todavia, disso discordam outros comentaristas. Em todo o caso, a situação mediata é a de um eu, que, no início do livro, identifica-se com a voz masculina de um filho de Davi e rei de Israel em Jerusalém (Ecl. 1:1,12) e, em 7:25, engaja-se com todas as suas forças na direção do primeiro alvo, wəḥešbōwn ḥāḵmāh ūḇaqqêš wəlāṯūr lāḏa'aṯ/a conhecer e a explorar e buscar sabedoria e cálculo, segmentando, fônica e estruturalmente, wəlāṯūr lāḏa'aṯ/a conhecer e a explorar num bloco e wəḥešbōwn ḥāḵmāh ūḇaqqêš/buscar sabedoria e cálculo, noutro. No primeiro, a sonoridade (lad, dat e lat),o uso da preposição lā/para ou a antecedendo os dois verbos e a coordenação por waw/e (wə-) criam paralelismo e integração. No segundo, as combinações de v, k e sh (ūḇaqqêš/e buscar; wəḥešbōwn/e cálculo) e a, q, k e h (ḇaqqêš/e buscar; ḥāḵmāh/sabedoria) e a ausência da preposição lā/para antes do verbo enfatizam ḇaqqêš/buscar e distinguem esse bloco do vizinho, ao mesmo tempo que a forma infinitiva e a conjunção waw/e (ū-) o justapõem como paralelo.
  A ênfase fônica e estrutural de ḇaqqêš/buscar tem seu correlato semântico, pois os três infinitivos parecem se dispor em gradação. A raiz de yāḏa (ḏa'aṯ)/conhecer possui o sentido

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básico de percepção visual (ver, Genesius 189016); já o sentido básico de tûr/explorar é o de percurso espacial (andar, Genesius 189017); o de bāqaš (ḇaqqêš)/buscar é de percepção tátil (tocar, Genesius 189018). Ampliados metaforicamente para entidades abstratas, tais sentidos ordenam-se logicamente, de sorte que buscar ou manejar uma ideia pressupõe explorá-la, o que requer "vê-la" ou apreendê-la. Nessa escala, ḇaqqêš/buscar representa o máximo grau de reflexão, o todo ou hiperônimo, que se divide nas partes ou co-hipônimos (sentido 16; Fig. 6 e 7) wəlāṯūr lāḏa'aṯ/a conhecer e a explorar, uma hendíade (sentido 15; Fig. 6 e 7), sendo a ausência da presposição lā/para antes de ḇaqqêš/buscar recurso de divisão dos blocos todo-parte.
  Uma vez que a sonoridade de ūḇaqqêš/e buscar inclui a de ḥāḵmāh/sabedoria e a de wəḥešbōwn/e cálculo, o locutor iguala buscar sabedoria a buscar cálculo. Além disso, os dois substantivos se prestam à mesma função semântica (entidade buscada) e sintática (complemento do verbo) em organização paralela (substantivo sem determinante), o que expõe sua equivalência. O locutor evoca no contexto verbal imediato (na tríade de verbos) o contexto idiomático, isto é, o próprio sistema linguístico como fundo (cf. Coseriu 1979 [1955/56]: 231; 1994: 128; 2007: 105), no qual os três verbos associam-se formalmente pela sonoridade e semanticamente por hiperonímia, e, com tais associações, constrói figura do todo e a sua parte, em que sabedoria, o todo (hiperônimo), e cálculo, sua parte (hipônimo), correspondem ao máximo grau de exatidão do conhecimento (sentido 17; Fig. 8).

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Fig. 8: Atos linguísticos 14 a 17 – figura do todo e a sua parte e hendíade em Ecl. 7:25. Fonte: Elaboração própria

  Aqui, a figura do todo e sua parte e a hendíade servem à intensificação, expressando máximo grau de envolvimento, reflexão e exatidão (Fig. 9).

Fig. 9: Figura do todo e sua parte, hendíade e intensificação em Ecl. 7:25. Fonte: Elaboração própria

  O segmento 25b, coordenado por waw/e a 25a, também principia com a preposição lā/para ou a e cumpre, como o segmento anterior, a função semântica de alvo e sintática de complemento oracional de sabbōwṯî/volvi. Desse modo, o locutor constrói paralelismo entre os segmentos 25a e b (sentido 18; Fig. 10) e orienta tais enunciados argumentativamente para o seguinte raciocínio: se a proposição 25a (P) é similar à proposição 25b (Q) quanto à forma, então, são similares quanto ao significado; logo, para o locutor, R1-buscar sabedoria e cálculo (P) é conhecer hōwlêlōwṯ wəhassiḵlūṯ kesel reša/ impiedade insensatez e a estultícia loucuras (Q) (sentido 19; Fig. 10). O locutor instaura, assim, uma proporção em que a forma de P está para a de Q (paralelismo) assim como o conteúdo proposicional de P está para o de Q (paráfrase19).

Fig. 10: Atos linguísticos 18 e 19 – paralelismo e paráfrase em Ecl. 7:25. Fonte: Elaboração própria

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  Convém observar que figuras como hendíade e o todo e a sua parte e analogia estão ligadas a algum tipo de ḥešbōwn/cálculo: a hendíade (hèn dià dyoîn/um através de dois) corresponde a uma divisão (1÷2); a figura do todo e a sua parte, a uma inclusão (A⊃B); a analogia, a uma proporção (A:B::C:D). Visto que cada signo evoca o subsistema a que pertence (Coseriu 1994: 99; 2007: p. 88), as três figuras e a expressão ḥešbōwn/cálculo evocam como zona a linguagem matemática e como âmbito o conhecimento matemático (Fig. 8 e 10).
  Contudo, o que o locutor pretende com a sequência de substantivos hōwlêlōwṯ wəhassiḵlūṯ kesel reša/impiedade insensatez e a estultícia loucuras? Ingram (1996, 340-341) compila quatro interpretações:

1) Enumeração de itens separados (Fox 1989), traduzível como impiedade, insensatez, estultícia, loucura;
2) Dois pares de construção estado20, recurso do hebraico com que se exprime posse, geralmente traduzido como a impiedade da insensatez e a estultícia da loucura, mas ocasionalmente também como a insensatez da impiedade e a loucura da insensatez (em português, Almeida Revista e Corrigida, 2009; Nova Versão Internacional, 2001; Bíblia Almeida do Século 21, 2020; Tradução do Novo Mundo, 1984);3) Enumeração em que hōwlêlōwṯ/loucuras exerce função adjetiva de um dos itens: impiedade, insensatez e a estultícia louca;
4) Dois pares de acusativos duplos, aproximadamente, conhecer que impiedade é insensatez e a insensatez, loucura (por exemplo, Bíblia Ave Maria, 1959; Almeida Corrigida Fiel, 1994; Almeida Revista e Atualizada, 1993; Nova Almeida Atualizada, 2017; Tradução Brasileira, 2010).

  Avaliemos tais propostas de sentido com base nas escolhas operadas pelo locutor para a organização textual.
  A organização fônica manifesta que laços de paralelismo são caros ao locutor; logo, possíveis rupturas provavelmente perseguem um efeito de sentido não alcançável mediante paralelismo ou mesmo alcançável exatamente por sua quebra. Nessa direção, a ausência da sonoridade ut no singular hohelah/loucura impediria sua rima e aliteração com siḵlūṯ/estultícia; por isso, o locutor rompeu o paralelismo com os substantivos singulares wəhassiḵlūṯ kesel reša/impiedade insensatez e a estultícia e empregou na enumeração a forma plural hōwlêlōwṯ/loucuras, que rima e alitera com siḵlūṯ/estultícia. Isso não se pode reproduzir em português, pois se trata de contexto idiomático; por conseguinte, adiante traduziremos o

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hebraico pl. hōwlêlōwṯ como português sing. loucura. Ainda, o recurso à rima e aliteração desqualifica a interpretação (3), em que hōwlêlōwṯ/loucura exerceria função adjetiva, o que não acrescenta efeito mais vantajoso que a própria manutenção do paralelismo; portanto, não explica a ruptura nem corresponde ao saber expressivo do locutor.
  Outra quebra é que somente siḵlūṯ/estultícia recebe artigo. Como uma das funções do artigo definido é indicar que a expressão afetada se refere a informação conhecida, o leitor busca-a no contexto verbal imediato ou mediato (Coseriu 1979 [1955/56]: 231-232; 1994: 128-129; 2007: p. 105-106) e, ao fazê-lo, localiza no contexto verbal imediato, kesel/insensatez, sinônimo de siḵlūṯ/estultícia, e, assim, estabelece entre os termos uma relação anafórica, em que siḵlūṯ/estultícia é igual a kesel/insensatez, uma igualdade confirmada pela aliteração de s, k e l. Esse laço anafórico comprova que os quatro substantivos não compõem enumeração de itens separados e, com isso, bloqueia-se a interpretação (1). A presença do artigo em siḵlūṯ/estultícia e sua ausência em kesel/insensatez comunica ainda, de um lado, que kesel/insensatez não é determinado, pois, se fosse, segundo a prova da comutação, o locutor teria recorrido não somente à aliteração, mas também ao artigo definido para reforçar o paralelismo com siḵlūṯ/estultícia; de outro, kesel reša/impiedade insensatez não constituem construção estado definida (a impiedade da insensatez), pois o locutor sabia que tal leitura seria favorecida pela prefixação de kesel/insensatez com o artigo definido, que, nesse tipo de construção, em geral, acompanha o segundo membro da construção, de sorte que, se abdicou de recurso que não apenas permitiria manter o paralelismo de kesel/insensatez e siḵlūṯ/estultícia, mas ainda tornar mais evidente a ocorrência de uma construção estado, é porque, de fato, não desejava tal leitura, evitando-a. Além disso, a interpretação como construção estado indefinida (uma impiedade de uma insensatez) não faz sentido no verso, que não trata de um tipo específico de impiedade ou insensatez dentre outros, mas da classe geral de impiedade e insensatez. Portanto, o contexto verbal negativo – aquilo que o locutor não diz ou faz com a linguagem – desaprova a interpretação (2).
  Mas por que o locutor usa siḵlūṯ/estultícia no lugar de kesel/insensatez, se isso dificulta o reconhecimento da retomada anafórica, mais facilmente identificável se tivesse repetido kesel/insensatez? A resposta não pode estar no significado de siḵlūṯ/estultícia, que é idêntico ao de kesel/insensatez; logo, encontra-se no plano da expressão, no significante siḵlūṯ/estultícia, um homônimo de śiḵlūṯ/prudência (Seow 1997: 125), as duas expressões distinguindo-se por ס s em siḵlūṯ/estultícia e שׂ ś em śiḵlūṯ/prudência. Segundo Sæbø (1997: 1269-1272), a raiz שׂכל /śkl significa ter discernimento, ser perspicaz, recaindo sua ênfase no ato de observação

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atenta, de percepção e escrutínio, mediante o qual alguém se torna inteligente ou sábio. Sabendo da homonímia, o locutor deseja explorá-la; por isso, a enfatiza, esperando que o leitor reconheça seu valor informativo, isto é, ela permite, de um lado, informar que C (siḵlūṯ/estultícia) é parte de ABCD (respectivamente, reša/impiedade; kesel/insensatez; wəhassiḵlūṯ/e a estultícia; hōwlêlōwṯ/loucura), mas também que C se opõe ao membro ¬C (śiḵlūṯ/prudência ou sabedoria) em sequência correspondentemente antônima (¬A¬B¬C¬D). Ao fornecer tal informação, o locutor impõe ao leitor a tarefa de suprir os demais membros com antônimos correspondentes. A partir de trechos anteriores, pode-se recuperar a oposição de reša/impiedade a mišpāṭ/juízo ou justiça (Ecl. 3:16) e de kesel/insensatez (Ecl. 2:15, 19; 4:5; 6:8; 7:18), siḵlūṯ/estultícia (Ecl. 2:3, 12, 13; 10:1, 13) e hōwlêlōwṯ/loucura (1:17; 2:12; 7:25; 9:3; 10:13) a ḥāḵmāh/sabedoria. Considerando tais dados, a escolha por siḵlūṯ/estultícia, no contexto idiomático das associações formais (homonímia), permite aludir às proposições opostas ¬A¬B¬C¬D (sentido 20; Fig. 11), no contexto verbal negativo, efeito que não seria alcançável com a repetição de kesel/insensatez.

Fig. 11: Ato linguístico 20 – alusão em Ecl. 7:25. Fonte: Elaboração própria

  Com a conjunção waw/e, o locutor segmenta ABCD em duas metades AB e CD, marcadas por padrões específicos de aliteração. Visto que siḵlūṯ/estultícia e kesel/insensatez são ambos substantivos, sinônimos e correferentes e tal relação de igualdade é sinalizada pela aliteração de s, k e l, então, o leitor depreende que a aliteração entre os outros dois pares (r, l e s em AB; h, l e t em CD; Fig. 4 acima) também se presta a exprimir igualdade: A (reša/impiedade) = B (kesel/insensatez); C (siḵlūṯ/estultícia) = D (hōwlêlōwṯ/loucuras). Aderimos, portanto, à interpretação (4).
  Assim, o verso 25b estabelece igualdade entre os termos A e B, B e C e C e D, correspondendo à estrutura de uma equação matemática de proporção (A:B::C:D), um cálculo (ḥešbōwn), de modo que se pode raciocinar que, se reša/impiedade (A) é kesel/insensatez (B) e, dado que kesel/insensatez (B) é igual a siḵlūṯ/estultícia (C) e este (C) é igual a hōwlêlōwṯ/loucura (D), logo, conclui-se que R2- reša/impiedade (A) é hōwlêlōwṯ/loucura (D)

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(sentido 21; Fig. 12). Na perspectiva antônima, se mišpāṭ/juízo ou justiça (¬A) está para ḥāḵmāh/sabedoria (¬B) assim como śiḵlūṯ/prudência ou sabedoria (¬C) está para ḥāḵmāh/sabedoria (¬D), disso resulta que R3- mišpāṭ/juízo ou justiça é ḥāḵmāh/sabedoria (¬D) (sentido 22; Fig. 12).

Fig. 12: Atos linguísticos 21 e 22 – paráfrase em Ecl. 7:25. Fonte: Elaboração própria

  Ao implicitar as duas últimas paráfrases21, o locutor estabelece laços com Ecl. 7:16 e 17, versos, por vezes, interpretados como uma defesa da moderação tanto na prática de impiedade quanto de justiça. Com Eclesiastes 7:25, o locutor indica que se deve recusar uma leitura dessas porções que não esteja de acordo com seu julgamento absoluto, expresso nas duas paráfrases22. Portanto, no contexto verbal negativo, ele alude a tal interpretação e contesta-a, restringindo as possibilidades de interpretação de Ecl. 7:16-17 (sentido 23; Fig. 13). Tal contestação prova a acuidade de comentário por Coseriu (2007: 133), segundo o qual o texto completo não é a maior unidade de sentido possível, sendo necessário, em alguns casos, considerar o conjunto da obra de um autor. Esse é o caso em Ecl. 7:25.

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Fig. 13: Ato linguístico 23 – contestação em Ecl. 7:25. Fonte: Elaboração própria

  Assim, em Ecl. 7:25, as unidades de sentido articulam-se umas às outras em unidades para construírem o sentido global de contestação (Fig. 14):

Fig. 14: Articulação dos sentidos em Ecl. 7:25. Fonte: Elaboração própria

4. Eclesiastes 7:26: a comparação a mulher é igual ao homem e a introdução de uma voz feminina

Ecl. 7:26 inicia-se com ūmōwṣe/e achei, uma contração da conjunção waw/e (u-) e do particípio mōwṣe/achei, e segue-se, então, o sujeito 'ănî/eu. Segundo Holmstedt e Cook (2017: 220), a ordem particípio-sujeito é marcada no hebraico e aqui focaliza mōwṣe. Este particípio distingue-se do perfeito māṣāṯî/achei (em Ecl. 7:27, 28 e 29), de um lado, pelo aspecto iterativo, traduzível como port. achei repetidamente; de outro, pela valência, pois relaciona três argumentos: uma

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entidade que acha algo (o sujeito), a entidade achada (complemento direto) e uma qualidade atribuída à entidade achada (complemento predicativo). Adota-se a ordem marcada complemento predicativo-complemento direto, introduzindo-se, antes da entidade achada, mimmāweṯ mar, uma construção comparativa, em que a preposição min/além de ou mais atibui a uma entidade posição superior à do termo de comparação māweṯ/morte numa escala de amargor, estabelecida pelo adjetivo masculino mar/amargo, que, por sua vez, cria a expectativa de introdução de uma entidade masculina. Porém, a 'êṯ, partícula de marcação de objeto direto, sem tradução no português, que anuncia o complemento direto, segue-se o sintagma nominal feminino hā'iššāh/a mulher, em quebra de concordância de gênero com o adjetivo. O verso prossegue com uma oração encabeçada por 'ăšer/que ou pois, contendo /pronome enfático com cópula ela é ou mera cópula é: məṣōwḏîm hî 'ăšer/que ela é redes. A conjunção waw/e coordena ao bloco anterior o segmento yāḏehā 'ăsūrîm libbāh waḥărāmîm/e laços seu coração correntes suas mãos, com quatro substantivos, dois dos quais possuem sufixos possessivos femininos, libbāh/seu coração e yāḏehā/suas mãos, e dois são plurais, ḥărāmîm/laços e 'ăsūrîm/correntes. No período final, waw/e ou mas contrasta duas orações estruturadas em sujeito-verbo-complemento oblíquo: na primeira, o verbo yimmālêṭ/escapará seleciona o sujeito hā'ĕlōhîm lip̄ nê ṭōwḇ/o bom diante de Deus e o complemento oblíquo mimmennāh/dela; na segunda, yillāḵeḏ/virá a ser preso seleciona o sujeito ḥōwṭê/o pecador e o complemento oblíquo bāh/por ela (Fig. 15).

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Fig. 15: Glosa interlinear de Eclesiastes 7:26. Fonte: Adaptado de Bible Hub23

  No plano fônico (Fig. 16), o locutor cria musicalidade (sentido 1): alitera f, b, v, o e u (padrão A) em ūmōwṣe/descobri repetidamente, mimmāweṯ/mais que a morte, məṣōwḏîm/redes, waḥărāmîm/e laços, libbāh/seu coração, 'ăsūrîm/correntes, ṭōwḇ/bom, linê/diante de, 'ĕlōhîm/Deus, wəḥōwṭê/mas o pecador, bāh/por ela; m e n (padrão B) em ūmōwṣe/descobri repetidamente, 'ănî/eu, mar/amargo, mimmāweṯ/mais que a morte, məṣōwḏîm/redes, waḥărāmîm/e laços, 'ăsūrîm/correntes, lip̄nê/diante de, 'ĕlōhîm/Deus, yimmālêṭ/escapará, mimmennāh/dela; t, d, ts, sh e s (padrão C) em ūmōwe/achei repetidamente, māwe/a morte, 'ê/partícula, hā'iššāh/a mulher, 'ăšer/que, məōwîm/redes, 'ăsūrîm/correntes, yāehā/suas mãos, ōwḇ/bom, yimmālê/escapará, wəḥōwê/mas o pecador, yillāḵe/virá a ser preso; cria assonância de e e i (padrão D) em ūmōwṣe/descobri repetidamente, 'ănî/eu, mimmāweṯ/mais que a morte, ṯ/partícula, hā'iššāh/a mulher, 'ăšer/que, hî/ela é, məṣōwḏîm/redes, waḥărāmîm/e laços, libbāh/seu coração, 'ăsūrîm/correntes, yāḏehā/suas mãos, lip̄nê/diante de, 'ĕlōhîm/Deus, yimmālêṭ/escapará, mimmennāh/dela, wəḥōwṭê/mas o pecador, yillāḵeḏ/virá a ser preso; de a (padrão E) em nî/eu, mar/amargo, hā'iššāh/a mulher, šer/que, waărāmîm/e laços, libbāh/seu coração, 'ăaūrîm/correntes, yāḏehā/suas mãos, hā/a ou o, yimmālêṭ/escapará, mimmennāh/dela, yillāḵeḏ/virá a ser preso, bāh/por ela; ainda alitera r e l (padrão F) em mar/amargo, 'ăšer/que, ḥărāmîm/laços, libbāh/seu coração, 'ăsūrîm/correntes, lip̄nê/diante de, 'ĕlōhîm/Deus, yimmālêṭ/escapará, yillāḵeḏ/virá a ser preso; h e k (padrão G) em hā'iššāh/a mulher, hî/ela é, ărāmîm/laços, libbāh/seu coração, yāḏehā/suas mãos, hā'ĕlōhîm/o Deus, mimmennāh/dela, wəōwṭê/mas o pecador, yillāeḏ/virá a ser preso, bāh/por ela.

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Fig. 16: Aliteração e assonância em Eclesiastes 7:26. Fonte: Elaboração própria

  Mediante tais sonoridades, o locutor engendra paronomásias: com os padrões A, B, C e D, em sequências como ū-m-ōw-ṣ-e-n-î, m-m-i-m-m-ā-w-e-ṯ-ê-ṯ e i-š-š-š-e-î-m-ə-ṣ-ōw-ḏ-î-m, entre outras, de māweṯ/morte (sentido 2; Fig. 17); com C, D e E, em sequências como ṣ-î-a, a-i-t, t-ê-ā, entre outras, de îš/homem e 'iššāh/mulher (sentido 3; Fig. 17); com C, D, E e F, em sequências como ṣ-e-ă-î-a-r-i-e-ṯ, 'ê-ṯ-ā-i-š-š-ā-ă-š-e-r-î-ə-ṣ-ḏ-î, entre outras, de reša/impiedade (sentido 4; Fig. 17); com E, F e G, em sequências como ă-a-r, ā-h-ā-h-ă-r-h, a-ḥ-ă-r-ā, entre outras, de rā'āh/mal (sentido 5; Fig. 17); com F e G, em sequências como h-h-r-h, r-h-h, l-r-h, h-k-l-l-h, de howlelah/loucura (sentido 6; Fig. 17). Paronomásia, aliteração e assonância são tradições literárias e, portanto, enquadram-se no contexto cultural (Coseriu 1979 [1955/56]: 234) de Qohelet/Eclesiastes e da Bíblia Hebraica. Ainda digno de nota é que as paronomásias de reša/impiedade e howlelah/loucura, em 7:26, evocam a paráfrase impiedade é loucura, conteúdo temático de Ecl. 7:25, enlaçando coesivamente os dois versos (sentido 7; Fig. 17).

Fig. 17: Atos linguísticos 1 a 7 em Ecl. 7:26. Fonte: Elaboração própria

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  Isso é calculado, pois há paronomásia de hkm/sabedoria, em 7:28 (Fig. 18) e, assim, evocação da paráfrase juízo ou justiça é sabedoria, também conteúdo temático de 7:25.

Fig. 18: Paronomásia de hkm/sabedoria em Ecl. 7:28. Fonte: Elaboração própria

  A distribuição das sonoridades conforma o verso à seguinte disposição (Fig. 19):

Fig. 19: Aliteração e quiasmas em Eclesiastes 7:26. Fonte: Elaboração própria

  De forma semelhante a Ecl. 7:25, mesmo as menores partes de Ecl. 7:26 contêm paralelismos invertidos e constroem quiasmas: em ūmōwṣe/e descobri repetidamente, a ordem vogal + nasal, ūm, inverte-se como nasal + vogal, mōw; em 'ănî/eu, a ordem vogal + nasal, 'ăn, inverte-se como nasal + vogal (î), nî; em mar/amargo, a ordem consoante + vogal, ma, inverte 'ăn, de 'ănî/eu, e passa a vogal + consoante, em ar; em mimmāweṯ 'êṯ/mais amargo que a morte [partícula], m-i passa a i-m-m, que passa a m-m-e-e; em hā'iššāh/a mulher, a ordem h-ā'-i-š-š, do início ao meio da expressão, passa a i-š-š-ā-h, do meio para o fim; em 'ăšer/que ou pois, a ordem vogal + š ('ăš), inverte-se comoš + vogal (še); em məṣōwḏîm hî/ela é redes, a ordem î-m passa a , e îm; em waḥărāmîm/e laços, a-ḥ passa a ḥ-ă, e ă-r a r-ā, e m-î a î-m; em libbāh/seu coração, a ordem vogal + bb (ibb) passa a bb + vogal (bbā); em 'ăsūrîm/correntes, a ordem vogal + s (ăs) passa a s + vogal (sū); em yāḏehā/suas mãos, y-ā passa a ā-e e, por fim, e-ā; em ṭōwḇ/o bom, a ordem consoante plosiva (t) + ōw passa a ōw + consoante plosiva (b);

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em lip̄nê/diante de, a ordem i-n inverte-se como n-ê; em hā'ĕlōhîm/Deus, a ordem h-ĕ-l, do início para o meio, passa a l-h-î, do meio para o fim; em yimmālêṭ/escapará, a ordem y-i-m-m, do início para o meio, passa a m-m-ê, do meio para o fim; em mimmennāh/dela, a ordem m-i passa a i-m-m, em seguida, m-e, e, por fim, e-n-n; em wəḥōwṭê/mas o pecador, a ordem w-ə passa a ə-ōw e, em seguida, ōw-ê; em yillāḵeḏ/virá a ser preso, a ordem y-i-ā passa a ā-e; em bāh/por ela, a ordem consoante (b) + ā inverte-se como ā + consoante (h). Em vista disso, todos os possíveis segmentos do texto se organizam quiasticamente. A seguir comentaremos cinco quiasmas relevantes para a segmentação do verso (Fig. 20):

Fig. 20: Quiasmas em Ecl. 7:26. Fonte: Elaboração própria

  Em mimmāweṯ mar 'ănî ūmōwṣe/e descobri repetidamente eu mais amargo que a morte (Q1; sentido 8; Fig. 22), ūmōwṣe alitera com māweṯ e 'ănî, com mim, em quiasma cujo pivô é o adjetivo mar/amargo. Essa estruturação revela planejamento e possibilidade de edição. Todavia, o locutor não corrigiu a discordância de gênero entre o complemento predicativo, mar/amargo, e o direto, hā 'iššāh/a mulher. O feminino mara/amarga não teria prejudicado a construção do quiasma; pelo contrário, a assonância de a seria reforçada – algo desejável (Fig. 21). Ainda assim, o locutor optou pelo masculino mar/amargo, ou seja, evitou a forma feminina. Disso se conclui que a ruptura é intencional.

Fig. 21: Prova da comutação de mar e mara em Ecl. 7:26. Fonte: Elaboração própria

  Em məṣōwḏîm hî 'ăšer hā'iššāh/a mulher que ela é redes (Q2; sentido 9; Fig. 22), a ordem sonora a-i-sh-sh-a de hā'iššāh/a mulher, na primeira ponta, reordena-se como a a-sh-e de 'ăšer/que, na segunda, e h-i de hî/ela é, na terceira, e este i forma com m inicial de məṣōwḏîm/redes, na quarta, o arranjo i-m, que passa a m-e, na primeira sílaba, məṣōwḏîm/redes, e retorna a i-m, na sílaba final, məṣōwḏîm/redes. A aliteração de ts e d em məṣōwḏîm/redes reforça essa estrutura quiástica. São resultados pretendidos: primeiro, porque se poderia recorrer à variante še-/que para evitar a sonoridade a-sh; segundo, porque se poderia dispensar e evitar a sonoridade h-i, já que o hebraico bíblico não requer cópula explícita. Porém, se

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é pronome enfático com cópula (ela é), não é dispensável e, nesse caso, a aliteração enlaça hā'iššāh e hî 'ăšer, com o quiasma favorecendo a leitura restritiva da oração encabeçada por 'ăšer/que.
  Em yāḏehā 'ăsūrîm libbāh waḥărāmîm/e laços seu coração correntes suas mãos (Q3; sentido 10; Fig. 22), a-h-a-a-i, de waḥărāmîm/e laços, na primeira ponta, inverte-se como i-a-h, de libbāh/seu coração, na segunda, que regressa como a-i, de 'ăsūrîm/correntes, na terceira, e i-a-e-h-a, de yāḏehā/suas mãos, na quarta. A aliteração de r e l, de um lado, e de v, b e u, de outro, produz a ordem w-r em waḥărāmîm/e laços, resequenciada como l-b-b em libbāh/seu coração e como u-r em 'ăsūrîm/correntes; m-i-m em waḥărāmîm/e laços reaparece no padrão i-m de 'ăsūrîm/correntes; visto ainda que, no verso, ts alitera com sh e d, observa-se que a combinação a-sh-i em 'ăsūrîm/correntes rearranja-se como i-a-d-e em yāḏehā/suas mãos. Pivô do trecho, 'ăsūrîm/correntes orienta as inversões.
  Em mimmennāh yimmālêṭ hā'ĕlōhîm lip̄nê ṭōwḇ/o bom diante de Deus escapará dela (Q4; sentido 11; Fig. 22), a ordem ōw-ḇ-l-i-p̄-n-ê, de lip̄nê ṭōwḇ/o bom diante de Deus, na primeira ponta, inverte-se como ĕ-l-ō-î-m, de hā'ĕlōhîm/Deus, na segunda; i-i-m-m-l-e, de yimmālêṭ/escapará, na terceira, reordena l-i-n-e, de lip̄nê/diante de, e e-l-i-m, de hā'ĕlōhîm/Deus. Na quarta ponta, mimmennāh/dela rearranja h-a, de hā/o, em a-h, e n-e, de lip̄nê/diante de, e i-m de 'ĕlōhîm/Deus, em m-i-m-m-e-n-n.
  Em bāh yillāḵeḏ wəḥōwṭê/mas o pecador virá a ser preso por ela (Q5; sentido 12; Fig. 22), a ordem v-einverte-se como e-ōw, na passagem de wə/mas, na primeira ponta, para ḥōwṭê/o pecador, na segunda; além disso, a ordem v-e-h-o-t-e, de wəḥōwṭê/mas o pecador, na primeira e segunda pontas, reaparece como i-i-k-e-d, de yillāḵeḏ/virá a ser preso, na terceira, e b-h, de bāh/por ela, na quarta. Note-se que a ordem v-o-t, de wəḥōwṭê/mas o pecador, segue curso inverso de ṭōwḇ/o bom, realçando a relação de antonímia entre as duas expressões, com função icástica (Coseriu 2007: 93).

Fig. 22: Atos linguísticos 8 a 12 em Ecl. 7:26. Fonte: Elaboração própria

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  Curioso é o uso do particípio mōwṣe/achei repetidamente, em 7:26, e do perfeito māṣāṯî/achei, em 7:27, 28 e 29. Segundo Ceresko (1982: 566), tais empregos servem à antanáclase, figura de repetição da mesma expressão em sentidos diferentes – no caso de Ecl. 7:24-29, do verbo māṣā em quatro acepções equivalentes a ing. grasp [port. entender], find[encontrar], learn [descobrir] e reach [conseguir]. O leitor, sabendo que māṣā, no contexto idiomático, é polissêmico, e, no contexto verbal imediato, atualiza diferentes acepções, apercebe-se que o locutor deseja explorar tal polissemia para brincar com as palavras. Assim, com mōwṣe/descobri repetidamente, o locutor executa, dois atos linguísticos: primeiro, exprime iteratividade e pluralidade do evento de descoberta em contraste aos demais sentidos de māṣā no trecho (sentido 13; Fig. 23); segundo, cria uma antanáclase, um trocadilho (sentido 14; Fig. 23). Na situação mediata, o enunciado designa eventos que se repetem e localiza-os num momento passado em relação ao momento de proferimento do enunciado pelo locutor, designado pela primeira pessoa.

Fig. 23: Atos linguísticos 13 e 14 em Ecl. 7:26. Fonte: Elaboração própria

  Outra dificuldade é a referência de hā'iššāh/a mulher e o tipo de oração introduzido por 'ăšer/que em məṣōwḏîm hî 'ăšer hā'iššāh/a mulher que ela é redes. Se 'ăšer/que ou pois introduz oração relativa explicativa (1) ou causal (2), o SN hā'iššāh/a mulher possui referência genérica; contudo, se relativa restritiva (3), hā'iššāh/a mulher possui referência específica, designando um subgrupo de mulheres. Noutra leitura, atributiva genitiva (4), ambígua quanto à referência de hā'iššāh/a mulher, a oração introduzida por 'ăšer é o atributo genitivo do substantivo hā'iššāh/a mulher, traduzindo-se hā'iššāh məṣōwḏîm waḥărāmîm aproximadamente como a mulher cujo coração é redes e laços. Tais interpretações parafraseiam-se do seguinte modo:

(1) Descobri mais amargo que a morte hā'iššāh/a mulher [referência genérica], 'ăšer/que ela é redes [referência genérica; relativa explicativa].
(2) Descobri mais amargo que a morte hā'iššāh/a mulher [referência genérica], 'ăšer//pois ela é redes [causal].

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(3) Descobri mais amargo que a morte hā'iššāh/a mulher [referência específica] 'ăšer/que ela é redes [relativa restritiva].
(4) Descobri mais amargo que a morte hā'iššāh/a mulher [referência genérica ou específica], 'ăšer/que/cujo coração são redes e laços [atributiva genitiva].

  De partida, vê-se que yāḏehā 'ăsūrîm libbāh waḥărāmîm məṣōwḏîm hî 'ăšer hā'iššāh/a mulher que ela é redes e laços seu coração correntes suas mãos constrói quiasma (Q6; sentido 15), com šer 'iššāh/a mulher que ela é (GE-EG-D-GD), na primeira ponta, e məṣōwḏîm/redes (DB), na segunda, constituindo unidade que, mediante a conjunção waw/e, une-se a outra unidade, paralelamente inversa, com waḥărāmîm/e laços (BDB), na terceira ponta, e yāḏe/suas mãos (EGE), na quarta (Fig. 22). Nessa estrutura, hā'iššāh/a mulher é a entidade possuidora de libbāh/seu coração e yāḏehā/suas mãos, as entidades possuídas, suas partes; também məṣōwḏîm/redes representa o todo, e ḥărāmîm/laços e 'ăsūrîm/correntes, suas partes (sentido 16). Assoma novamente a figura do todo e suas partes, o que esclarece, de um lado, a utilização de waw/e antes de ḥărāmîm/laços, com o fito de encerrar a unidade todo e marcar a abertura da unidade parte; de outro, sua ausência antes de 'ăsūrîm/correntes, no intuito de impedir a segmentação do trecho em três unidades (Fig. 24).

Fig. 24: Quiasma e figura do todo e suas partes em Ecl. 7:26. Fonte: Elaboração própria

  A articulação todo-parte harmoniza-se com a leitura restritiva (3) da oração introduzida por 'ăšer/que, que compõe juntamente com hā'iššāh/a mulher o complemento direto de mōwṣe/descobri repetidamente, o todo, mas diverge das leituras explicativa (1) e causal (2), que dividem o todo em dois segmentos (complemento direto e oração explicativa ou causal) e da leitura atributiva genitiva (4), que transpõe məṣōwḏîm/redes do todo, em que é atributo de hā'iššāh/a mulher, para a parte, em que se torna atributo de libbāh/seu coração (Fig. 25). Logo, a figura do todo e as suas partes exige a leitura restritiva de 'ăšer/que em Ecl. 7:26, vetando as leituras explicativa, causal e atributiva genitiva.

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Fig. 25: Segmentação de Ecl. 7:26 pela figura todo-parte e por leituras de 'ăšer. Fonte: Elaboração própria

  Outras escolhas no verso 26 confirmam a leitura restritiva da oração məṣōwḏîm hî 'ăšer/que ela é redes.
  Com mōwṣe/descobri repetidamente, o locutor exprime iteratividade e pluralidade de eventos. Porém, como se dão eventos plurais no verso 26? Não quanto ao agente da descoberta, 'ănî/eu, que permanece sempre igual. Também não quanto a hā'iššāh/a mulher, se em referência a todo o gênero feminino, pois o objeto afetado é sempre o mesmo conjunto. Como descobrir é verbo de cognição, estabelece-se uma pressuposição de que o sujeito sofre mudança em seu estado epistêmico, passando de não saber para saber algo. Consequentemente, a pluralidade de eventos exige repetida mudança de estado em que o locutor descobre que mais amargo que a morte é todo o gênero feminino e, em seguida, esquece tal descoberta, para poder fazê-la mais vezes. Teria o locutor algum grave problema de memória? Não é o caso; ele próprio informa ter composto muitos provérbios (Ecl. 12:9). Logo, com a expressão de pluralidade de eventos, ele indica o caráter distributivo de hā'iššāh/a mulher, em referência a diferentes mulheres a cada nova descoberta e não a todo o gênero feminino. Portanto, mōwṣe/achei repetidamente seleciona a leitura específica e distributiva de hā'iššāh/a mulher e restritiva de məṣōwḏîm hî 'ăšer hā'iššāh/a mulher que ela é redes.
  Quanto ao uso de como pronome enfático com cópula ela é ou mera cópula é, Holmstedt (2002) afirma que, no hebraico bíblico, pronomes resumptivos24 não obrigatórios (caso daqueles em posição sintática de sujeito) exercem função contrastiva. O autor contabiliza 30 dessas ocorrências na Bíblia Hebraica, incluindo Ecl. 7:26. Nesse verso, não é obrigatório, mas enfático, selecionando uma alternativa (um certo tipo de mulher) dentre um conjunto de outras alternativas (outros tipos) e estabelecendo a oração məṣōwḏîm hî 'ăšer hā'iššāh/a mulher que ela é redes como restritiva.

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  Ademais, tendo em vista que o tópico hā'iššāh/a mulher no verso 26 é novo no discurso, o leitor considera a opção de função demonstrativa do artigo, uso em que, frequentemente, a definitude do sintagma nominal se explica por uma predicação posterior que especifica o referente. Ao encontrar na sequência imediata uma predicação, məṣōwḏîm hî 'ăšer/que ela é redes, ele confirma sua expectativa de especificação, interpretando tal oração como restritiva.
  Contra a leitura específica de hā'iššāh/a mulher e restritiva de məṣōwḏîm hî 'ăšer hā'iššāh/a mulher que ela é rede, sustenta-se que, em Ecl. 7:28, o locutor avalia negativamente todo o gênero feminino e, por conseguinte, hā'iššāh/a mulher, em 7:26, necessariamente teria referência genérica. Entretanto, esse argumento fracassa diante do fato de que a forma hā'iššāh/a mulher, na primeira ocorrência (7:26), é definida, enquanto o nominal nu 'iššāh/mulher, na segunda (7:28), não é. Se tivessem a mesma referência, por que razão a expressão seria definida na primeira ocorrência, mas não na segunda? Isso é impossível; logo, com tal distinção, o locutor, de um lado, sinaliza que as ocorrências possuem referências distintas, o que é possibilitado pela ambiguidade de 'iššāh, que pode assumir o sentido 1-mulher ou 2-esposa, no contexto idiomático, e, de outro, orienta o leitor para nova ocorrência de antanáclase (sentido 17), em que se adotam os sentidos hā'iššāh/a mulher, em 7:26, no contexto verbal imediato, e 'iššāh/esposa25, em construção com o verbo māṣā/achar, em 7:28, no contexto verbal mediato, impedindo-se a interpretação de Ecl. 7:28 como condenação universalizante da mulher26. Aqui se jogam com duas segmentações e dois sentidos diferentes: na zona da linguagem coloquial no hebraico bíblico, o par mōwṣe/hā'iššāh, em 7:26, possui leitura composicional, mas o par 'iššāh/māṣāṯî, em 7:28, construcional.

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Fig. 26: Atos linguísticos 15 a 17 em Ecl. 7:26. Fonte: Elaboração própria

  Para melhor compreender as diferentes acepções de māṣā e 'iššāh nesse trecho, consideremos o universo de discurso da literatura sapiencial. Ao longo de Ecl. 7:23 a 8:1, o locutor fabrica variadas antanáclases, recorrendo à mudança de sentido e/ou morfologia da expressão. Propositadamente se dificulta o trabalho do leitor, que só constrói a coerência do texto, se identificar e desvendar tais ocorrências. A frequência do fenômeno no excerto é sintomática de uma tradição discursiva (cf. Kabatek 2006), da quaestio obscura (Schrott 2016) ou adivinha27: um teste da capacidade do intérprete, a transparecer também na pergunta final "Quem sabe interpretar as coisas?" (Ecl. 8:1). Identificamos os casos abaixo, que não se discutirão individualmente por falta de espaço:

• Substantivo introduzido por preposição ḇaḥāḵəmāh/com sabedoria (7:23); verbo 'eḥkāmāh/serei sábio (7:23); substantivo ḥāḵmāh/sabedoria (7:25); adjetivo introduzido por preposição kəheḥāḵām/como o sábio (8:1); substantivo definido ḥāḵəmaṯ-/a sabedoria (8:1);
• Substantivo 'āmōq/o profundo (7:24); adjetivo 'āmōq/misterioso (7:24);
• Forma verbal yimtza'ennu/pode achar (entender) (7:24); particípio mōwṣe/achei (descobri) repetidamente (7:26); perfeito māṣāṯî/achei (descobri) (7:27); infinitivo introduzido por preposição limṣō/para achar (obter) (7:27); perfeito māṣāṯî/achei (encontrei; consegui) (3x em 7:28); perfeito māṣāṯî/achei (descobri) (7:29);
• Substantivo singular ḥešbōwn/cálculo (7:25); substantivo singular ḥešbōwn/total (do cálculo) (7:27); substantivo plural ḥiššəḇōnōwṯ/intrigas ou astúcias (7:29);
• Substantivo acompanhado de artigo definido hā'iššāh/a mulher (7:26); nominal nu 'iššāh/esposa (7:28);
• Particípio feminino, sem artigo, com função de nome próprio masculino qōheleṯ/o Pregador (1:1, 2; 12:9,10); particípio feminino, sem artigo, com função de nome próprio feminino qōheleṯ/a Pregadora (7:27), retomado por pronome 'ăšer/a qual (7:28); particípio feminino, com artigo, com função de expressão definida, haqqōwheleṯ/o Pregador (12:8), para distinguir a voz masculina da feminina de mesmo nome28;

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• Substantivo acompanhado de numeral mê'elep̄ 'eḥāḏ 'āḏām/um amigo entre mil29 (7:28); substantivo acompanhado de artigo definido sing. hā'āḏām/o ser humano (7:29), retomado por pronome plural hêmmāh/eles (7:29); nominal nu, indefinido, 'āḏām/um ser humano (8:1);
• Substantivo introduzido por preposição ləḇaḏ/ (7:29): no sentido 1, geralmente adotado nas traduções, exerce a função de advérbio (Achei ləḇaḏ/tão somente isso), que atribui exclusividade à entidade descoberta30; sentido 2, exigido pela coerência semântica e ordem das palavras, exerce a função de adjetivo (ləḇaḏ/sozinho eis o que achei), que aponta para o contexto extraverbal (ao fato de o locutor estar só).

Tais expressões se distribuem do seguinte modo em Ecl. 7:23-8:1:

7:23 Tudo isso eu examinei ḇaḥāḵəmāh/com a sabedoria e disse: 'eḥkāmāh/serei sábio; mas isso estava fora do meu alcance.
24 A realidade está bem distante e 'āmōq/o profundo 'āmōq/misterioso; quem yimtza'ennu/pode achar (entender)?
25 Por isso dediquei-me a aprender, a investigar, a buscar ḥāḵmāh/sabedoria e ḥešbōwn/cálculo, para compreender a insensatez da impiedade e a loucura da insensatez.
26 ūmōwṣe/e achei (descobri) repetidamente que muito mais amargo do que a morte é hā'iššāh/a mulher que serve de laço, cujo coração é uma armadilha e cujas mãos são correntes. O bom diante de Deus escapará dela, mas o pecador virá a ser preso por ela.
27 "Veja", diz (ela) Qohelet/a Pregadora¹, "isto māṣāṯî/achei (descobri): Ao comparar uma coisa com outra limṣō/para achar (obter) ḥešbōwn/o total,

28 a qual¹ ainda busca minha alma, mas não māṣāṯî/achei (encontrei), mê'elep̄ 'eḥāḏ 'āḏām/um amigo entre mil māṣāṯî/achei (consegui), mas entre todos esses 'iššāh/esposa não māṣāṯî/achei (consegui).

29 ləḇaḏ/sozinho eis o que māṣāṯî/achei (descobri): Deus fez hā'āḏām/o ser humano reto, mas eles foram em busca de muitas ḥiššəḇōnōwṯ/intrigas."
8:1 Quem é kəheḥāḵām/como o sábio? Quem sabe interpretar as coisas? ḥāḵəmaṯ/a sabedoria de 'āḏām/um ser humano alcança o favor do rei e muda o seu semblante carregado. (adaptado de ACF)

  Atestada a leitura restritiva da oração məṣōwḏîm hî 'ăšer/que ela é redes, resta explicar a incongruência de gênero entre o complemento predicativo mar/amargo e o complemento direto hā'iššāh/a mulher.
  Slonim (1939) arrola uma série de hipóteses sobre incongruência de gênero no hebraico bíblico, mas nenhuma explica satisfatoriamente a ruptura entre fem. hā'iššāh/a mulher e masc. mar/amargo em Ecl. 7:26: assim, a organização aliterativa e quiástica invalida as hipóteses de a) erro e/ou b) influência da oralidade; também não é caso de c) vestígio de terminação dual

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comum, pois a desconformidade não se dá entre sufixos pronominais; d) o arcaísmo ou e) a variação dialetal não elucidam por que razão Qohelet/o Pregador quebra a concordância de gênero em alguns versos, mas a mantém em outros; já f) a neutralização de gênero (isto é, o enfraquecimento da distinção dos gêneros gramaticais no sistema linguístico, com incorporação da forma feminina pela masculina) não explica por que razão a descontinuidade ocorre em dupla direção, com formas femininas no lugar de masculinas (a exemplo do fem. Qohelet em referência ao locutor filho de Davi) e masculinas no lugar de femininas (a exemplo do masc. mar/amargo em qualificação do fem. hā'iššāh/a mulher). Falta refletir se g) o locutor usa a discordância para aumentar a informatividade do texto, criar um foco de atenção e propor ao leitor a tarefa de descobrir a motivação para tal descontinuidade (cf. Beaugrande e Dressler 1981: 137).
  De fato, em Eclesiastes, as quebras de gênero mostram-se intencionais: na primeira relação semiótica, correspondem ao comando semântico-gramatical Equipare masculino e feminino, técnica ou padrão de repetição (Kabatek 2015: 219) ao longo do livro; na segunda, produzem figuras de linguagem. Isso se comprova com alguns exemplos:

(1) ṭōwḇ/melhor [sg. m.] é 'aḥărîṯ/o fim [sg. f.] das coisas do que o princípio delas (...) Ecl. 7:8 (ACF)
(2) Reparte com sete, e ainda até com oito, porque não sabes que rā'āh/mal [sg. f.] yihyeh/haverá [sg. m.] sobre a terra. Ecl. 11:2 (ACF)
(3) Verdadeiramente que a opressão faria endoidecer até ao sábio, e mattānāh/o suborno [sg. f.] wî'abbêḏ/corrompe [sg. m.] o coração. Ecl. 7:7 (ACF)
(4) (...) e haššîr bənōwṯ kāl-/todas as filhas da música [pl. f.] wəyiššaḥū/se abaterem [pl. m.]. Ecl. 12:4 (ACF)
(5) Antes que ṯeḥšaḵ/se escureça [sg. f.] haššemeš/o sol [sg. f.], e hā'ō·wr/a luz [sg. m.], e hayyārêaḥ/a lua [sg. m.], e hakkōwḵāḇîm/as estrelas [pl. m.], e tornem a vir as nuvens depois da chuva; Ecl. 12:2 (ACF)

  A figura relevante em Ecl. 7:8 (1) e 11:2 (2) é a paronomásia numérica. Em Ecl. 7:8 (1; Castilho da Costa 2025: 93), há incongruência de gênero entre o adjetivo masculino ṭōwḇ/melhor e o substantivo feminino 'aḥărîṯ/fim. Mas o leitor nota que algumas expressões do verso se assemelham sonoramente a designações de numerais: ṭōwḇ/melhor assemelha-se a tav, última letra do alfabeto hebraico, com valor de numeral quatrocentos; 'aḥărîṯ/fim, a aḥath/dez; dāḇār/das coisas, a arbá/quatro; mêrêšiṯōw/princípio, a 'esərim/vinte e tav/quatrocentos. Evocam-se numerais e aponta-se para a redução dos valores desde o mêrêšiṯōw/princípio ('esərim/vinte e tav/quatrocentos) até o 'aḥărîṯ/fim (=aḥath/dez) dāḇār/das coisas (=arbá/quatro), reforçando a cessação de algo (da ira, em 7:9, ou, do passado, em 7:10). Também em Ecl. 11:2 (2; Castilho da Costa 2025: 92-93), há desconformidade de gênero: o

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verbo masculino yihyeh/haverá combina-se ao substantivo feminino rā'āh/mal; o leitor percebe semelhança na sonoridade de rā'āh/mal com a do numeral masculino 'ăśārāh/dez e de outros signos no verso a numerais: ḥêleq/porção evoca 'elep̄/mil; têḏa'/sabes, təša'/nove; hā'ā·reṣ/a terra, 'aḥaḏ 'eśrêh/onze. Aqui a evocação de numerais permite intensificar o impacto multiplicador da generosidade.
  Em Ecl. 7:7 (3), 12:4 (4) e 12:2 (5), encontram-se uma paráfrase e duas comparações. Em Ecl. 7:7 (3), a opressão destrói a razão do sábio, e o suborno corrompe o coração, a expressão feminina mattānāh/suborno discorda em gênero do verbo masculino wî'abbêḏ/corrompe. O paralelismo sintático e a sinonímia entre corromper/destruir e coração/razão31 colocam o primeiro segmento Opressão (A) destrói (B) a razão (C) do sábio (D) em proporção ao segundo, O suborno (A') corrompe (B') o coração (C'). Como B é igual a B' e C a C', o leitor obedece ao comando Equipare feminino e masculino e raciocina que se emprega verbo masculino, porque o fem. A' é igual ao masc. A, encontrando, assim, a paráfrase32 suborno é opressão. Em Ecl. 12:4 (4), e todas as filhas da música se abateram, o sujeito feminino plural haššîr bənōwṯ kāl-/todas as filhas da música discorda do verbo masculino plural wəyiššaḥū/abaterem. Aqui a instrução Equipare feminino e masculino, leva o leitor à comparação por igualdade, as filhas da música são iguais aos filhos da música, do que decorre que não apenas as filhas da música emudeceram, mas também os filhos – o silenciamento é total. Vale notar que tal comparação é subtipo da comparação ela é igual a ele (cf. item 1, acima). Por fim, em Ecl. 12:2, ao relacionar ao sujeito composto haššemeš/o sol [sg. f.], e hā'ō·wr/a luz [sg. m.], e hayyārêaḥ/a lua [sg. m.], e hakkōwḵāḇîm/as estrelas [pl. m.] o verbo feminino singular ṯeḥšaḵ/se escureça, o locutor quebra a concordância de gênero e número e incumbe o leitor de encontrar o modo pelo qual tal sujeito composto pode corresponder ao feminino singular. Uma vez que o texto sagrado atribui ao sol, à lua e às estrelas – aos luminares no céu – a função de iluminar hā'āreṣ/a terra [sg. f.] (Gên. 1:14, 17), logo, o sol e a luz e a lua e as estrelas se escurecerem é igual à hā'āreṣ/a terra [sg. f.] se escurecer, comparação por igualdade que justifica o uso do verbo feminino singular para o sujeito composto.

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  Do mesmo modo, com a discordância de gênero em Ecl. 7:26, o locutor emite a instrução semântico-gramatical Equipare feminino e masculino. O leitor sabe que o adjetivo mar/amargo (A) está para hā·'îš/o homem (B) assim como mara/amarga (C) está para hā'iššāh/a mulher (D). Com o uso de mar/amargo (A), qualificando hā'iššāh/a mulher (D), o locutor informa que, neste caso, mar/amargo é intercambiável por mara/amarga (A:C). Visto que A:B::C:D e, ainda, A:C, logo, esse locutor dirige o leitor à conclusão R1- hā'iššāh/a mulher (D) é igual a hā·'îš/o homem (B). Assim, o leitor descobre que a discordância de gênero entre o adjetivo masculino e a expressão nominal feminina não é buraco ou rotura no tecido textual, mas um dos fios de sua trama e urdidura, que leva à comparação por igualdade a mulher é igual ao homem (sentido 18; Fig. 27).
  Dessa comparação se infere que, se há məṣōwḏîm hî 'ăšer hā'iššāh/a mulher que ela é redes, então, também há R2-o homem que é redes (sentido 19; Fig. 27). Tal implícito esclarece a escolha pelo locutor do adjetivo masculino mar/amargo: o complemento predicativo 'êṯ mimmāweṯ mar 'ănî ūmōwṣe/e achei eu mais amargo que a morte [partícula] pressupõe o complemento direto masculino implícito hā·'îš/o homem e o complemento direto feminino hā'iššāh/a mulher, o complemento predicativo 'êṯ mimmāweṯ mara 'ănî ūmōwṣe/e achei eu mais amarga que a morte [partícula], quer dizer, a mulher que é redes é R3-mais amarga que a morte (sentido 20; Fig. 27). Além disso, visto que há um Qohelet/o Pregador, R4- há uma Qohelet/a Pregadora (sentido 21; Fig. 27).
  Neste ponto, cumpre sublinhar que, ao assumir como verdadeira a comparação por igualdade a mulher é igual ao homem, o locutor adota o ponto de vista igualitário de homens e mulheres, opondo-se ao ponto de vista que atribui à mulher moralidade inferior à do homem. Nesse contexto cultural, a voz masculina representa seu par romântico como idêntico a si mesmo (Qohelet/a Pregadora), equiparando amor a afinidade e, portanto, ódio a dissemelhança.

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Fig. 27: Atos linguísticos 18 a 22 em Ecl. 7:26. Fonte: Elaboração própria

  Aqui se reconfiguram os entornos do texto, pois o contexto verbal delineia agora duas situações mediatas, com seus respectivos locutores, uma voz masculina e outra feminina. Desse fato decorrem três consequências.
  Primeiro, a forma verbal feminina 'āmərāh/diz [ela], em Ecl. 7:27, não é erro de cópia, como considerada geralmente pelos exegetas; na verdade, conforma-se à forma participial feminina Qōheleṯ como referência explícita da voz feminina implícita em 7:26.
  Segundo, elucida-se a primeira dificuldade exegética de Eclesiastes, isto é, a escolha de uma forma feminina, Qōheleṯ, para designar um ser masculino, filho de Davi (Ecl. 1:1): o locutor designa-se a si mesmo combinando o particípio feminino Qōheleṯ a formas masculinas, em discordância de gênero, para promover a comparação por igualdade ela é igual a ele, que guia as designações, com um Qōheleṯ/o Pregador (Ecl. 1:1) e uma Qōheleṯ/a Pregadora (Ecl. 7:27). Por isso, não espanta a alta frequência da palavra adam/ser humano, que inclui homens e mulheres, ao longo do livro. Aliás, é de notar que a mesma comparação guia as designações dos locutores em Cantares, com Shelomoh/Salomão (Ct. 1:1) e Shulammith/Sulamita (Ct. 6:13), forma feminina de Salomão.
  Terceiro, como Qōheleṯ/o Pregador e Qōheleṯ/a Pregadora são almas gêmeas, suas crenças coincidem – o que ele afirma, também afirma ela e vice-versa. Além disso, por descobrir ser verbo factivo, pressupondo a verdade de seu complemento, as duas vozes assumem a verdade das proposições mais amargo que a morte é o homem que é redes e mais amarga que a morte é a mulher que é redes. Porém, é mais esperado que a voz feminina seja aquela que critica o homem que é mais amargo que a morte, enquanto a masculina, a mulher

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que é redes. Por conseguinte, a voz feminina é quem enuncia 'êṯ mimmāweṯ mar 'ănî ūmōwṣe/e descobri eu repetidamente mais amargo que a morte [partícula], e a masculina, yāḏehā 'ăsūrîm libbāh waḥărāmîm məṣōwḏîm hî 'ăšer hā'iššāh/a mulher que ela é redes e laços seu coração correntes suas mãos (sentido 22; Fig. 27 e 28).

Fig. 28: Vozes do Pregador e da Pregadora em Ecl. 7:26. Fonte: Elaboração própria

  Na continuidade, o locutor opõe mimmennāh yimmālêṭ hā'ĕlōhîm lip̄nê ṭōwḇ/quem for bom diante de Deus escapará dela a bāh yillāḵeḏ wəḥōwṭê/mas o pecador virá a ser preso por ela. Da antonímia entre yimmālêṭ/escapará e yillāḵeḏ/virá a ser preso, conclui-se, inicialmente, que o bom diante de Deus é o contrário do pecador, ou seja, R5-o pecador é mau diante de Deus (sentido 23; Fig. 29) e R6-o bom diante de Deus não é pecador (sentido 24; Fig. 29). Visto que as duas categorias são julgadas pela Divindade, fica implícito que dela recebem a retribuição: R7-Deus é quem livra o bom da mulher que é redes (sentido 25; Fig. 29) e R8-não livra o mau, mas o condena a ser preso por ela (sentido 26; Fig. 29). De onde se segue que a mulher que é redes é instrumento de retribuição por Deus, razão pela qual a expressão hā'ĕlōhîm/Deus reativa os padrões hā/āh, e/i e mə/immim, exibidos em hā'iššāh/a mulher, libbāh/seu coração, ehā/suas mãos, ṣōwḏîm/redes, ḥăeāmîm/laços e sūrîm/correntes, no contexto verbal imediato anterior. A presença do padrão immimme/ne/mana em mimmennāh yimmālêṭ hā'ĕlōhîm li ṭōwḇ/o bom diante de Deus escapará dela, e sua ausência em bāh yillāḵeḏ wəḥōwṭê/mas o pecador virá a ser preso por elatambém adquire valor de signo, reproduzindo estruturalmente o sentido de falta na semântica do verbo chata/pecar: o pecador falta para com Deus (hā'ĕlōhîm); por isso, falta-lhe a aliteração de immimme/ne/mana, ou seja, o livramento por Deus. Porque o pecador sofre perda, as aliterações não são exatas, mas suficientes para estabelecer paralelismo. Assim, há discrepância, de um lado, entre as expressões yimmālê/escapará e yillāe/virá a ser preso e, de outro, entre mimmennāh/dela e bāh/por ela. O locutor dispõe os significantes de modo a imitarem as entidades designadas, o que corresponde à função icástica da linguagem (Coseriu 2007: 93).
  Ademais, a comparação por igualdade a mulher é igual ao homem, no contexto verbal imediato anterior, incita a presumir uma contraparte masculina e outra feminina para todas as classes de pessoas: assim, se há homem bom diante de Deus, R9-há mulher boa diante de Deus

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(sentido 27; Fig. 29); se há pecador, R10-há pecadora (sentido 28; Fig. 29); e, portanto, R11-a mulher boa diante de Deus escapará do homem que é redes (sentido 29), enquanto R12-a pecadora será capturada por ele (sentido 30; Fig. 29).

Fig. 29: Atos linguísticos 23 a 30 em Ecl. 7:26. Fonte: Elaboração própria

  Novamente se realiza a maior unidade de sentido apenas em conjunto com a obra do autor (Coseriu 2007: 133), pois só se apreende o ato linguístico de ilustrar a paráfrase impiedade é loucura (sentido 31; Fig. 30), em Ecl. 7:26, em seu imbricamento com Ecl. 7:25.

Fig. 30: Articulação dos sentidos em Ecl. 7:26. Fonte: Elaboração própria

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  Resta aclarar como Ecl. 7:25 e 26 se encaminham para um sentido global. Esses versos impelem o leitor para dentro de um labirinto de antanáclases, hendíades, comparações e outras figuras de linguagem, a eclipsarem o(s) sentido(s), ao mesmo tempo, prometendo-lhe que se pode vislumbrar a luz da saída solucionando dois enigmas: "quem fala?" e "sobre o quê?". Por intermédio da quebra de concordância de gênero, o leitor chega à trilha da comparação por igualdade ela é igual a ele (sentido 18) e rastreia as pegadas de duas vozes, uma masculina, do Qohelet/Pregador, e outra feminina, da Qohelet/Pregadora, sua alma gêmea (sentidos 21 e 22), os quais enunciam o que descobriram ou não33 (sentido 32): do mesmo modo que mais amargo que a morte é o homem que é redes, também é mais amarga que a morte a mulher que é redes (sentidos 19 e 20); o bom diante de Deus não é pecador nem o pecador é bom diante de Deus (sentidos 23 e 24); é Deus quem livra um e castiga o outro (sentidos 25 e 26); se há homem bom diante de Deus, há mulher boa diante de Deus (sentido 27) e, se há pecador, há pecadora (sentido 28); do mesmo modo que Deus livra o homem bom da mulher que é redes, Ele livra a mulher boa do homem que é redes (sentido 29); porém, Ele castiga o homem pecador com a mulher que é redes, e a pecadora, com o homem que é redes (sentido 30). Por essa via, Ecl. 7:26 ilustra a paráfrase impiedade é loucura, de Ecl. 7:25 (sentido 31; Fig. 31) e, em conjunto com Ecl. 7:25, alcança o sentido global de uma quaestio obscura, uma adivinha, que testa a sabedoria e capacidade de interpretação do leitor (sentidos 33 e 34; Fig. 31). Agora iluminado, o leitor compreende por que o mesmo locutor que obscurece o sentido é aquele que também inquire "E quem sabe a interpretação das coisas?" (Ecl. 8:1).

Fig. 31: Sentido global de quaestio obscura/adivinha em Ecl. 7:25-26. Fonte: Elaboração própria

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  Finalmente, na situação mediata, por atribuir-se à Pregadora o enunciado 'êṯ mimmāweṯ mar 'ănî ūmōwṣe/e achei mais amargo que a morte [part.] e ao Pregador, todos os demais, as duas vozes acomodam-se do seguinte modo em Ecl. 7:25-26:

Fig. 32: Vozes do Pregador e da Pregadora em Ecl. 7:25-26. Fonte: Elaboração própria

  Finda a presente análise da articulação do sentido em Eclesiastes 7:25-26, cabe apontar conclusões e questões em aberto.

5. Conclusão

Este estudo analisou a articulação de sentido em Eclesiastes 7:25-26, produzindo importantes resultados tanto para a Linguística quanto para a Hermenêutica bíblica.
  A distinção de três conteúdos linguísticos – designação, significado e sentido, em dupla relação semiótica nos textos, bem como seus variados entornos ajudaram a descortinar a articulação do sentido em Ecl. 7:25-26. Vale destacar, entre outros, a situação, entorno que toca o nível enunciativo dos textos/discursos e, portanto, a questão da polifonia; também o contexto verbal negativo, isto é, o que não é dito, mas aludido, conduz ao nível das relações discursivas e dialógicas. Assim, a proposta coseriana de LT aprofunda distintos níveis de análise e mostra-se teórica e metodologicamente sólida.
  Em Ecl. 7:25-26, o locutor elabora uma quaestio obscura para testar a sabedoria do leitor, sua capacidade de reconhecer e interpretar figuras de linguagem que velam e desvelam o(s) sentido(s) do texto. Daí decorrem duas características desse texto: a) sua ambiguidade (Ingram 1996), que é sintoma de tradição discursiva (Kabatek 2006); b) seu alto grau de elaboração linguística (Koch/Oesterreicher 1990), com técnicas fonéticas, morfemáticas, grafemáticas, semânticas – de jogos de palavras, que o leitor necessita reconhecer para interpretar seu sentido adequadamente (Kabatek 2015).
  Quanto a Ecl. 7:25, demonstrou-se o máximo grau de engajamento do locutor, expresso mediante figuras como a hendíade e o todo e as suas partes, com a verdade das paráfrases buscar sabedoria e cálculo é conhecer que impiedade é insensatez e a insensatez/estultícia, loucura; impiedade é loucura; e juízo ou justiça é sabedoria. Com isso, Qohelet/o Pregador refuta uma

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leitura de Ecl. 7:17-18 como defesa da prática moderada de impiedade quanto de injustiça; também se opõe às vozes que defendem tal tipo de moderação; adere, ainda, a uma concepção absoluta de que impiedade é loucura e juízo ou justiça é sabedoria; por fim, mostra-se atento à atividade do leitor, restringindo as possibilidades interpretativas.
  Quanto a Ecl. 7:26, notou-se que o locutor evoca, mediante paronomásia, a paráfrase impiedade é loucura, conteúdo implícito de Ecl. 7:25, que se ilustra em 7:26; atestamos a cuidadosa escolha de palavras, a eficiência na organização da forma e a intencionalidade na discordância de gênero entre mar/amargo e hā·'iššāh/a mulher, e como tal ruptura corresponde a técnica também usada em outros versos (por exemplo, Ecl. 7:7,8, 11:2, 12:2,4), isto é, à emissão pelo locutor da instrução semântico-gramatical, Equipare o masculino ao feminino (aqui, "considere mar/amargo como intercambiável por mara/amarga"), a qual, uma vez obedecida, resulta na comparação por igualdade a mulher é igual ao homem. Por conseguinte, o locutor informa que há duas vozes no texto, a do Qohelet/o Pregador e a da Qohelet/a Pregadora, atribuindo à voz feminina o segmento 'êṯ mimmāweṯ mar 'ănî ūmōwṣe/e descobri eu repetidamente mais amargo que a morte [partícula].
  Com o reconhecimento de tal comparação, chega-se ao corolário de que há uma contraparte masculina e outra feminina para uma série de classes: ao homem bom diante de Deus, a mulher que é boa diante de Deus; ao pecador, a pecadora; à captura do pecador pela mulher que é redes, a captura da pecadora pelo homem que é redes; ao livramento recebido pelo homem bom diante de Deus da mulher que é redes, o livramento recebido pela mulher boa diante de Deus do homem que é redes. Visto que tal comparação reflete ponto de vista igualitário, incompatível com aquele que afirma a inferioridade moral da mulher, logo, conclui-se que o locutor, Qohelet/o Pregador, não é misógino.
  Tal comparação pode contribuir, ainda, para a solução de outros problemas exegéticos.
  Em Ecl. 1:1, há duas dificuldades: a) o locutor alude a Salomão mediante caracterizações como rei de Israel e filho de Davi, mas não menciona explicitamente esse nome próprio; b) usa-se a expressão feminina Qohelet para designar voz masculina, em quebra de concordância de gênero. Considerando que a incongruência de gênero em Ecl. 1:1 se presta à construção da comparação por igualdade ela é igual a ele e à introdução da voz feminina da Pregadora, por conseguinte, se o locutor se referisse explicitamente ao nome masc. Salomão, também precisaria se referir ao correspondente fem. Sulamita – como acontece, aliás, em Cantares; porém, isso prejudicaria a construção da adivinha, motivo pelo qual o locutor evita o nome próprio.

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  Em Ecl. 7:27, a expressão feminina Qohelet combina-se à forma verbal feminina 'āmərāh/diz [fem.] no segmento qōheleṯ 'āmərāh, literalmente, diz [ela] a Pregadora. Em geral, os intérpretes propõem que a ocorrência do sufixo feminino -ah nesse verbo é erro do copista; todavia, a detecção de uma voz feminina em Ecl. 7:26 estabelece um laço coesivo com a forma verbal feminina, favorecendo a hipótese de que não se trata de erro de cópia, mas da continuação das trocas de turno entre o Pregador e a Pregadora, iniciadas em 7:26.
  Em Ecl. 12:8, o locutor usa a forma definida haqqōwheleṯ; porém, nos demais casos (1:1, 1:2, 7:27, 12:9, 12:10), a expressão feminina aparece sem artigo, com função de nome próprio. Em virtude da comparação por igualdade ela é igual a ele, identificam-se dois indivíduos de mesmo nome, Qohelet/o Pregador e a Qohelet/a Pregadora, elucidando a função do artigo definido, que é a de distingui-los.
  Por fim, destacamos uma questão a ser investigada em Ecl. 7:28: as antanáclases de 'iššāh (hā'iššāh/a mulher, em 7:26; 'iššāh/esposa, em 7:28) e 'āḏām (mê'elep̄ 'eḥāḏ 'āḏām/um amigo entre mil, em 7:28; hā'āḏām/o ser humano, 7:29; 'āḏām/um ser humano, em 8:1) são indícios de que o locutor, em Ecl. 7:28, não contrapõe homens e mulheres quanto à integridade moral, criticando a moralidade da mulher como inferior – como faz crer a interpretação tradicional –, mas relacionamentos (amizade vs. amor conjugal) quanto à sua raridade e, portanto, valorizando a esposa.

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    1 Segundo Dell (2013: 90), não há consenso quanto à delimitação desse excerto; alguns intérpretes propõem que o tópico se desenvolve de 7:23 a 8:1; outros, de 7:25 a 7:29. Para Coseriu (2007: 146-147), o começo e o fim de um texto são lugares particularmente relevantes para identificar seu tema. Por isso, considerando que se introduz ḥāḵmāh/sabedoria em Ecl. 7:23 e posteriormente se retoma esse tópico mediante o adj. ḥăḵam/sábio, em 8:1, tomamos Ecl. 7:23-8:1 como unidade cujo contexto temático é sabedoria.

    2 A proporção ou analogia é a relação de quatro termos, iguais entre si, que compara duas relações, do tipo A:B::C:D ou A:B::B:C (Plantin 2025: 61). Muitas comparações se constroem com base nesse modelo (Ricalens-Pourchot 2011: 23).

    3 A comparação explicita a correspondência entre duas entidades mediante conectivo (como, assim como, também) ou verbo (assemelhar-se, parecer, entre outros), sem que tais entidades se fundam (Bühlmann e Scherer 1994: 70). As comparações (de superioridade, inferioridade e igualdade, respectivamente) correspondem aos esquemas A é maior/melhor que B, A é menor/inferior que B e A é igual a B (Bullinger 1898: 727; Ricalens-Pourchot 2011: 53-54).

    4 Aschenberg (2017: 75) inclui os saberes elocutivo, idiomático e expressivo no contexto idiomático. Neste estudo, alocamos os saberes elocutivo, idiomático e expressivo, respectivamente, nos contextos extraverbal, idiomático e cultural.

    5 Para Aschenberg (2017: 75), os contextos extraverbais empírico, natural, prático, histórico e cultural correspondem ao conhecimento enciclopédico.

    6 Tradições discursivas são modos tradicionais de dizer (Koch 1997; Kabatek 2006).

    7 Em Linguística, glosas interlineares trazem o enunciado original, traduzido palavra por palavra, com informações gramaticais sobre os itens, bem como uma tradução idiomática. Tendo em vista que isso exige prévia adesão a uma proposta de sentido, restringimo-nos a apresentar a tradução palavra por palavra.

    8 Disponível em: https://biblehub.com/interlinear/ecclesiastes/7-25.htm Acesso: 12/10/2025.

    9 A aliteração consiste na repetição de um fonema consonântico em palavras consecutivas (Massaud Moisés 2002: 16; Ricalens-Pourchot 2011: 42; Bühlmann e Scherer 1994: 17), e a assonância, do mesmo som vocálico (Ricalens-Pourchot 2011: 42; Bühlmann e Scherer 1994: 17).

    10 O tamanho da circunferência indica a intensidade das frequências das vogais e consoantes; mais frequência, maior circunferência; menor frequência, menor circunferência.

    11 Na paronomásia, as sonoridades formam palavras inteiras (cf. Bühlmann e Scherer 1994: 19; Massaud Moisés 2002: 389; Ricalens-Pourchot 2011: 100).

    12 Consideramos contrações como uma única expressão; por exemplo, wəlāṯūr/e a explorar.

    13 Quiasmas são paralelismos invertidos a exprimirem correspondência (cf. Bühlmann e Scherer 1994: 43-45; Massaud Moisés 2002: 426; Ricalens-Pourchot 2011: 51).

    14 Na hendíade, expressa-se um conceito mediante dois outros, coordenados (cf. Bühlmann e Scherer 1994: 33); Massaud Moisés 2002: 272; Ricalens-Pourchot 2011: 72).

    15 A figura do todo e suas partes impulsiona outras quebras intencionais de concordância gramatical na Bíblia Hebraica. A esse respeito, veja-se Castilho da Costa (2025).

    16 https://www.blueletterbible.org/lexicon/h3045/kjv/wlc/0-1/ Acesso: 12/10/2025.

    17 https://www.blueletterbible.org/lexicon/h8446/kjv/wlc/0-1/ Acesso: 12/10/2025.

    18 https://www.blueletterbible.org/lexicon/h1245/kjv/wlc/0-1/ Acesso: 12/10/2025.

    19 Tomamos A é B por um esquema geral de predicação, de inclusão, literal ou metafórica, de um indivíduo A numa classe B. Aqui o conceito coseriano de solidariedade lexical (em alemão, lexikalische Solidarität), definida como o compartilhamento de semas, distingue o uso literal, unindo termos solidários (Coseriu 1967: 296), do metafórico, unindo termos não solidários (Coseriu 1967: 301). Por exemplo, há uso literal em R1-buscar sabedoria e cálculo (A) é conhecer que impiedade é insensatez e a estultícia, loucura (B) (Ecl. 7:25), pois A e B são solidários: os substantivos ḥāḵmāh/sabedoria e hōwlêlōwṯ/loucura (7:25b) delimitam-se um ao outro como antônimos na língua hebraica. Ademais, A é B serve a dois tipos de inclusão: quando A é B, mas nem todo B é A; e quando não somente A é B, mas também B é A, com acarretamento mútuo. Ao primeiro tipo, chamaremos de categorização literal, seguindo Chiappe/Kennedy (2011), e, ao segundo, de paráfrase (Cançado 2008: 43). No caso de R1-buscar sabedoria e cálculo (A) é conhecer que impiedade é insensatez e a estultícia, loucura (B) (Ecl. 7:25), os termos A e B fazem parte de proporção, sendo iguais e havendo acarretamento mútuo. Portanto, trata-se de paráfrase.

    20 Segundo Waltke e O’Connor (2006: 137-140), no hebraico, a relação de posse pode ser expressa pela justaposição de dois substantivos na estrutura construto + genitivo, em que o primeiro substantivo, o construto ou base (C) é modificado pelo segundo, o genitivo ou absoluto (G); nessa estrutura, C caracteriza-se, fonologicamente, pelo enfraquecimento do acento e/ou a presença de acento conjuntivo; morfologicamente, por terminação distintiva em alguns casos e, sintaticamente, por nunca poder receber artigo, ao passo que G permanece inalterado e pode receber artigo definido ou indefinido. Em certos tipos de genitivo (epexegético, medida, gênero, superlativo), o construto é o modificador e o genitivo é o elemento modificado (Waltke e O’Connor 2006: 154)

    21 Os membros da enumeração hōwlêlōwṯ wəhassiḵlūṯ kesel reša/impiedade insensatez e a estultícia loucuras compõem proporção, sendo iguais uns aos outros, com acarretamento mútuo. Por isso, R2 e R3 são paráfrases: não somente R2-impiedade é loucura, mas também loucura é impiedade; não somente R3-juízo ou justiça é sabedoria, mas sabedoria é juízo ou justiça. Também há solidariedade lexical: +obediência a Deus é propriedade tanto da justiça (A) quanto da sabedoria (B); também +desobediência a Deus é propriedade tanto da impiedade (C) quanto da loucura (D). Trata-se de uso literal.

    22 Aqui não se poderá analisar a interpretação preferida pelo locutor para Ecl. 7:16-17.

    23 https://biblehub.com/interlinear/ecclesiastes/7-26.htm Acesso: 12/10/2025.

    24 O pronome resumptivo duplica um constituinte sintático da oração. Em məṣōwḏîm hî ’ăšer hā’iššāh/a mulher que ela é redes, o pronome hî/ela é correferencial com o SN hā’iššāh/a mulher, duplicando a posição de sujeito já ocupada pelo relativo ’ăšer/que.

    25 Sobre a construção māṣā iššāh/achar ou tomar esposa, vejam-se Fontaine (1998: 151) e Fox (2004: 53).

    26 Tal hipótese será colocada à prova em estudo ulterior.

    27 Sobre Ecl. 7:23-8:1 como adivinha, veja-se Fleck (2019).

    28 Adiante se identificará uma voz feminina.

    29 A fórmula mê’elep̄ ’eḥāḏ/um entre mil é usada na literatura sapiencial (por exemplo, em Jesus Ben Sirac/Eclesiástico, 6:6) em referência à raridade de uma pessoa íntima e confiável. A esse respeito, vejam-se Michel (1981: 231), Corley (2015: 31) e Fischer (2007).

    30 O próprio texto desautoriza tal sentido, pois produz incoerência: o locutor faz outras descobertas em 7:26 e 28, de sorte que a descoberta em 7:29 não pode ser exclusiv

    31 No hebraico bíblico, o coração é o órgão de raciocínio.

    32 A (suborno) e B (opressão) pertencem ao mesmo domínio, compartilhando o sema +desonestidade. Poder-se- ia considerar que todo A é B (suborno é opressão), mas algum B pode não ser A (outro tipo de opressão não é suborno); contudo, em Ecl. 7:7, a opressão que destrói a razão do sábio não é qualquer opressão, mas somente o suborno. Nesse verso, A e B designam a mesma entidade: não somente suborno é opressão, mas opressão é suborno, e, por isso, trata-se de paráfrase.